Diptendu Dutta/Agece France-Presse - Getty Images
Diptendu Dutta/Agece France-Presse - Getty Images

Cercas e linhas elétricas matam milhares de animais selvagens

Choque elétrico pode até pôr em risco sobrevivência de espécies

Rachel Nuwer, The New York Times

08 Janeiro 2019 | 06h00

A África do Sul é um país de sítios, fazendas e parques nacionais, muitos dos quais com quilômetros de cercas eletrificadas. As cercas impedem a invasão de animais e de pessoas indesejadas, e protegem o gado e os animais selvagens desejados. Mas a instalação de cercas tem também um aspecto letal: ela mata animais menores, particularmente aves e répteis que os cientistas se preocupam em conservar. A culpa é dos fios dos detonadores. Posicionados a cerca de 15 centímetros do solo, os fios são um sistema rápido de dissuasão para leões famintos e porcos do mato que invadem as plantações.

Mas nem todos os animais reagem afastando-se. As tartarugas que embarram em um detonador se escondem no interior de suas carapaças em vez de ir embora, enquanto os pangolins se enrolam formando uma bola defensiva. Os animais permanecem no lugar, chocados, até que o seu coração não tem mais forças. “Caminhando ao longo das cercas, os fazendeiros acham de seis a oito tartarugas mortas em 100 metros”, disse Luke Arnot, um cirurgião veterinário.

Segundo um estudo de 2008, cerca de 21 mil répteis morrem a cada ano na África do Sul depois de entrarem em contato com cercas eletrificadas. Arnot tentou dar o alarme, publicando artigos em revistas de agricultura e pecuária que detalham medidas práticas, baratas, e elaboram diretrizes de proteção dos animais selvagens para a instalação de cercas eletrificadas. Os seus remédios são simples: levantar do chão os fios de detonação ou só ligar a corrente elétrica à noite, quando os predadores vão à caça. “Estas cercas têm a capacidade de dizimar todas as populações,  e estão fazendo isto mesmo”, afirmou.

Não são apenas as cercas que matam. As linhas de força são instaladas sem critério nos países pobres; elas também podem eletrocutar animais, e as colisões frequentemente se revelam fatais para as aves. Além dos custos da conservação, o custo econômico pode ser significativo. Em 2016, por exemplo, um macaco verde provocou um apagão que afetou todo o Quênia depois de esbarrar em um transformador, cortando toda a energia de cerca de 4,7 milhões de domicílios e empresas.

O choque elétrico afeta uma grande variedade de animais; em alguns, é tão comum que põe em risco a sobrevivência de certas espécies. Nos países do sul da África, ela é considerada uma das maiores ameaças para os abutres do Cabo, uma espécie ameaçada e os abutres de dorso branco crucialmente ameaçados. Na Ásia Central, a eletricidade mata anualmente cerca de 4 mil falcões Saker, outra espécie ameaçada.

Até os animais de grande porte estão correndo perigo. Mais de 100 elefantes asiáticos foram mortos por choque elétrico no estado de Odisha, na Índia, em 12 anos, em geral por contato com linhas de força. Girafas, elefantes africanos, leopardos, búfalos do Cabo e rinocerontes brancos foram eletrocutados em vários países.

Os primatas são vítimas frequentes. Pelo menos 30 espécies e subespécies destes morrem por uma descarga elétrica na Ásia, África e América Latina. “A coisa mais terrível das linhas de força é que todas elas matam”, afirmou Simon Thomsett, um administrador do Kenya Bird of Prey Trust, “mas as pessoas aqui dizem que não ligam porque nós precisamos desenvolver o nosso país”.

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