A flexibilidade do cérebro permite que os dedos dos pés sejam usados como os dedos das mãos.
A flexibilidade do cérebro permite que os dedos dos pés sejam usados como os dedos das mãos.

Como o cérebro mapeia o corpo em artistas que pintam com os pés?

Cérebros revelam a flexibilidade das mentes jovens, segundo pesquisadores que analisaram dois pintores

Francie Diep, The New York Times

30 de setembro de 2019 | 06h00

Perguntem a Tom Yendell como aprendeu a comer, a usar um computador, a fazer ligações telefônicas ou qualquer oura coisa com os pés, e ele devolverá a pergunta. “Como você imagina que faz as coisas com as suas mãos?” perguntou recentemente. “Ninguém precisa ensinar-lhe como fazer. Você faz isto naturalmente”.

Yendell, 57, e Peter Longstaff, 58, são membros da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés. Um medicamento prescrito para as respectivas mães grávidas fez com que eles nascessem sem os braços, então os dois aprenderam a realizar tarefas com a boca, o queixo e os pés. Segundo os pesquisadores, as mudanças que ocorreram em razão disto em seus cérebros revelaram a flexibilidade das mentes jovens.

“Estes rapazes passaram a vida ganhando experiência utilizando os pés’, disse Tamar Makin, neurocientista do University College de Londres, que chefiou um estudo sobre homens ingleses publicado recentemente na revista Cell Reports. “Se eles podem mudar a organização do cérebro, significa que nós temos a possibilidade de mudá-la em outras pessoas.”

Usando imagens de tomografia do cérebro, Makin e a sua equipe analisaram o “mapa sensorial do corpo humano”, a área do cérebro que processa as sensações de várias partes do corpo. Determinadas regiões do mapa, que está localizado na camada externa do cérebro, ou córtex, são responsáveis pela recepção de sinais de partes específicas do corpo.

Nas regiões das mãos há aglomerados de células cerebrais que se iluminam ao tocar o polegar e os quatro dedos. Estes aglomerados estão dispostos na mesma ordem dos dedos que elas supervisionam. Nas pessoas desenvolvidas, a parte do “pé” no mapa é uma região compacta, sem uma representação distinta dos dedos. Mas no cérebro de Yendell e de Longstaff, havia claras áreas dos dedos dos pés, dispostas na ordem.

Estudos anteriores observaram que o mapa do corpo consegue ajustar-se a defeitos de nascença e ao treinamento especializado - por exemplo, dedicando uma porção maior do mapa ao dedo mindinho esquerdo em pessoas que tocam violino. Portanto, não era algo necessariamente surpreendente que Yendell e Longstaff possuíssem mapas dos dedos dos pés detalhados no seu cérebro, embora estes mapas não tenham sido vistos anteriormente em outras partes.

A ideia do desenvolvimento de novos mapas corporais para ajudar adultos afetados, como as vítimas de derrames, a recuperar o uso dos membros é uma possibilidade distante, mas poderá ser um resultado final da pesquisa em indivíduos como Yendell e Longstaff. Entretanto, uma das principais barreiras é o fato de que mudanças do mapa corporal tão drásticas se iniciam a uma idade muito precoce, ou mesmo antes do nascimento.

Yendell e Longstaff começaram a usar os pés como mãos quando eram jovens, quando os mapas corporais dos seus cérebros ainda estavam em desenvolvimento. Quando era um jovem adulto, Yendell aprendeu a dirigir um carro adaptado, e com ele viajou pela Europa. 

Antes que Longstaff começasse a treinar com a associação de pintores, passou vinte anos cuidando de uma criação de porcos. “Adoro a vida ao ar livre”, ele disse. “Eu dirigia tratores. Levantava fardos de palha. Fazia tudo o que a maioria das pessoas faz”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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