‘Junk food’ é mais viciante do que drogas?

‘Junk food’ é mais viciante do que drogas?

Em 'Hooked', Michael Moss analisa o fato de que nenhuma droga consegue desencadear o circuito de compensação tão rapidamente no nosso cérebro quanto a nossa comida favorita

Anahad O’Connor, The New York Times - Life/Style

15 de abril de 2021 | 05h00

Em um depoimento, há uns vinte anos, pediram a Michael Szymanczyk, CEO da gigante do tabaco Philip Morris, uma definição de dependência química. “A minha definição de dependência é um comportamento repetitivo que algumas pessoas têm dificuldade para abandonar”, ele respondeu.

Szymanczyk falava no contexto do tabagismo. Mas um novo e fascinante livro de Michael Moss, jornalista investigativo e autor de best-sellers, afirma que a definição de dependência feita pelo executivo do tabaco pode se aplicar à nossa relação com outro grupo de produtos que a Philip Morris vendeu e produziu por décadas: alimentos altamente processados.

Em seu novo livro, Hooked, Moss analisa a ciência por trás da dependência, e afirma que as empresas fabricantes de alimentos criaram elaborados alimentos extremamente processados a fim de tomar controle do nosso cérebro, levando-nos a comer demais e a contribuir para alimentar uma epidemia global de obesidade e de doenças crônicas. Moss sugere que os alimentos processados como cheeseburguer, salgadinhos e sorvetes não só criam dependência, como podem dar origem a um vício ainda maior do que o do álcool, do tabagismo e das drogas

O livro utiliza documentos internos da indústria e entrevistas com pessoas do setor que afirmam que algumas companhias da área de alimentos começaram a se dar conta da natureza viciante dos seus produtos e adotaram medidas drásticas para evitar serem responsabilizadas, como acabar com importantes pesquisas dos alimentos que contêm açúcar e liderando a elaboração de leis que impedissem eventuais processos por danos por parte dos consumidores.

Em outra medida igualmente cínica, escreve Moss, estas companhias começaram, no final dos anos 1970, a adquirir uma série de famosas empresas de alimentos saudáveis, o que lhes permitiu lucrar com as nossas tentativas de perder o peso ganho com o consumo dos seus alimentos. 

A Heinz, uma gigante de alimentos processados, adquiriu a Weight Watchers em 1978 por US$ 72 milhões. A Unilever, que vende barras de Klondike e o sorvete Ben & Jerry’s, em 2000 pagou US$ 2,3 bilhões pela SlimFast. A Nestlé, que produz barras de chocolate e hot pockets, adquiriu a Jenny Craig em 2006 por US$ 600 milhões. E, em 2010, a companhia de private equity que controla o sorvete Cinnabon and Carvel adquiriu a Atkins Nutritionals, que vende barras de chocolate, lanchinhos e achocolatados com baixo teor de carboidratos. A maioria dessas marcas posteriormente foi vendida a outras controladoras.

“A indústria de alimentos impediu nos tribunais que movêssemos ações em que declarávamos que levavam ao vício, começaram a controlar a ciência de maneiras problemáticas, e assumiram o controle  da indústria das dietas”, afirmou Moss em uma entrevista. “Eu me debruço no mundo da indústria dos alimentos processados há dez anos e ainda me impressiono com a profunda desonestidade de suas estratégias, não só para se aproveitar dos nossos instintos básicos, mas para explorar as nossas tentativas de controlarmos os nossos hábitos”.

Outrora repórter do jornal The New York Times e vencedor do Prêmio Pulitzer, Moss mergulhou no mundo da indústria do processamento de alimentos a partir de 2013, com a publicação de Salt Sugar Fat. O livro explicava como as companhias formulam o ‘junk food’ para obter o “bliss point” (ou ponto de felicidade) que as torna irresistíveis e comercializar esses produtos usando táticas da indústria do tabaco. Entretanto, depois de escrever o livro, Moss não estava convencido de que os alimentos processados pudessem acabar viciando. 

“Eu tentei evitar o termo vício quando estava escrevendo Salt Sugar Fat’”, afirmou. “Me pareceu absolutamente ridículo. Não conseguia entender como era possível comparar os bolinhos Twinkies ao crack”.  

Mas enquanto ele mergulhava fundo na ciência que mostrava como os alimentos processados afetam o cérebro, ele ficou impressionado. Um elemento crucial que influencia a natureza viciante de uma substância e o fato de consumirmos ou não a substância de maneira compulsiva é a rapidez com que ela excita o cérebro.

Quanto mais rápido ela atinge o nosso circuito de compensação, maior o seu impacto. É por isso que fumar crack produz um efeito mais potente do que aspirar cocaína pelo nariz, e fumar cigarros produz sensações de compensação mais fortes do que usar um esparadrapo de nicotina: fumar reduz o tempo que leva para as drogas atingirem o cérebro.

Mas nenhuma droga que cria dependência consegue ativar o circuito de compensação no nosso cérebro tão rapidamente quanto o nosso alimento favorito, escreve Moss. “O fumo dos cigarros leva 10 segundos para atingir o cérebro, mas um toque de açúcar na língua o faz em pouco mais de meio segundo, 600 milissegundos, para ser preciso”, acrescenta. “Cerca de 20 vezes mais rápido do que os cigarros”. 

Isto coloca o termo ‘junk food’ sob uma nova luz. “Medido em milissegundos, e considerando o poder de viciar, nada é mais rápido do que o alimento processado para estimular o cérebro”, acrescentou.

Moss explica que as próprias pessoas que trabalham na indústria do tabaco notaram a poderosa atração dos alimentos processados. Nos anos 1980, a Philip Morris adquiriu a Kraft e a General Foods, tornando-se a maior fabricante de alimentos processados nos EUA, com produtos como Kool-Aid, Cocoa Pebbles, os biscoitos Capri Sun e Oreo. 

Mas o diretor do departamento jurídico da companhia e vice-presidente, Steven Parrish, confessou que achou perturbador o fato de que era mais fácil para ele deixar os cigarros da companhia do que os seus biscoitos de chocolate. “É um perigo quando tenho nas mãos um saquinho de chips, ou de Doritos ou Oreos”, ele disse a Moss. “Evito até abrir um saquinho de Oreos porque, em vez de comer um ou dois, posso comer a metade do pacote”.

A Associação Americana de Psiquiatria elaborou uma lista de 11 critérios usados para diagnosticar o que ele chama distúrbio provocado pelo uso de uma substância, que pode variar de leve a grave, dependendo de quantos sintomas a pessoa apresenta. 

Entre esses sintomas estão os desejos, a incapacidade de desistir apesar de desejar, e continuar usando uma substância embora prejudicial. Moss explicou ainda que as pessoas que lutam com alimentos processados podem tentar estratégias simples para vencer desejos rotineiros, como dar um passeio, ligar para um amigo ou comer alternativas saudáveis como um punhado de nozes. Mas para algumas pessoas, podem ser necessárias medidas mais extremas.

“Depende do ponto em que a pessoa se encontra no espectro”, ele disse. “Conheço pessoas que não podem tocar um grão de açúcar sem perder o controle. Elas vão até o supermercado e, ao chegar em casa, o seu carro está repleto de saquinhos vazios. Para elas, a solução é a abstenção total”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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