Stephen Speranza para The New York Times
Stephen Speranza para The New York Times

Cérebro pode diferenciar ruídos benignos dos perigosos

Reação ao som ocorre na forma de resposta sensorial provocada por determinados estímulos auditivos

Matt Wasielewski, The New York Times

03 de março de 2019 | 06h00

O constante ruído maçante que enchia as salas de alguns diplomatas americanos em Cuba era difícil de tolerar. Mas, não foi este, ao contrário do que eles suspeitavam, o motivo de suas dores de cabeça, náusea e perda de audição. Foram simplesmente os grilos. Dois pesquisadores compararam recentemente o ruído alto e agudo, gravado em novembro de 2016, a um banco de dados online de sons de insetos, e concluíram que foi produzido por grilos de cauda curta das Índias.

“O seu canto é incrivelmente alto. Ele pode ser ouvido dentro da cabine de um caminhão diesel viajando a quase 70 quilômetros por hora”, disse um dos autores do estudo, Alexander Stubbs, da Universidade da Califórnia em Berkeley, ao Times. O que não significa que os diplomatas não tenham sido atacados, quem sabe, por alguma arma sônica desconhecida, mas a gravação suspeita não foi a fonte. Os cientistas sabem há muito tempo que os sons produzem um efeito fisiológico nas pessoas, seja provocando dores de cabeça, seja acordando-as ou produzindo formigamentos no pescoço.

Nosso cérebro diferencia ruídos benignos de ruídos perigosos, disse Rafael Pelayo, professor do Stanford Center for Sleep Sciences and Medicine da Califórnia. “Como poderia uma mãe alimentar o bebê se a capacidade de acordar não estivesse conectada ao nosso cérebro?”, disse Pelayo ao Times, explicando por que o ruído acorda as pessoas. “O tálamo precisa decidir se vale a pena informar o córtex por causa de determinado ruído”.

As pessoas que têm sono leve conhecem muito bem esta realidade biológica, e milhões delas recorrem a máquinas de ruído branco, que ajudam a abafar o barulho e acalmam. Longe dos sons emitidos pelas baleias ou das brisas do oceano, muitos adormecem com o ruído de uma estrada de ferro próxima, de uma cabine de avião ou de uma siderúrgica, segundo Stéphane Pidgeon, engenheiro elétrico e criador do Mynoise.net. O seu gerador de ruído branco tem um milhão de visualizações de páginas por mês.

Penelope Green, do Times, acha que estes sons podem nos acalmar porque evocam o ambiente de ruídos da nossa infância. Alguns especialistas, ela observou, constataram que as crianças dormem melhor enquanto ouvem sons que imitam o barulho da movimentação dos líquidos do ventre. Para alguns adultos, esta reação visceral ao som ocorre na forma de uma resposta sensorial autônoma do meridiano, ou A.S.M.R. na sigla em inglês, uma sensação quase estática, calmante, provocada por determinados estímulos auditivos.

Milhões de fãs da A.S.M.R. recorrem ao YouTube para ouvir os sons de sussurros, dedos que tamborilam, páginas farfalhando, quando alguém chupa macarrão, criam uma sensação que alguns descrevem como um “orgasmo do cérebro”, noticiou o Times. A tendência enfrentou resistência dos que a consideram algo sexual. No ano passado, o governo chinês proibiu os vídeos da A.S.M.R., que definiu de natureza pornográfica.

“A A.S.M.R. não é uma resposta sexual, o que não significa que não possa ser sexualizada”,  disse Craig Richard, um professor da Shenandoah University, Virgínia, e autor de Brain Tingle. Não se preocupe se você não pertencer aos 20% da população que, segundo Richard, podem experimentar A.S.M.R.  As sensações sonoras, sejam elas excitantes ou calmantes, são inerentemente subjetivas.

“Você precisa convencer-se de que o som do ronco é lindo”, disse Pigeon referindo-se a uma das suas opções do sono. “Algumas pessoas me pediram para colocar o ronco no site porque elas estão acostumadas a dormir com um parceiro roncando, e quando o parceiro vai embora - está viajando, ou morreu ou o casal se divorciou - elas sentem falta do som”.

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