Ed Jones/Agence France-Presse
Ed Jones/Agence France-Presse

Cérebro pode estimular pessoas a uma vida sedentária

Uma pesquisa mostra que sinais elétricos emitidos pelos cérebro podem afastar as pessoas das atividades físicas

Gretchen Reynolds, The New York Times

14 Outubro 2018 | 06h00

Será que a preguiça física é de nascença? Um novo estudo neurológico sugere que a resposta mais provável é sim. O resultado revela que mesmo quando as pessoas sabem que exercício é algo desejável e planejam fazer ginástica, certos sinais elétricos dentro de seus cérebros podem estar estimulando-as a ser sedentárias.

A expectativa dos autores do estudo é que aprender mais a respeito de como nossas mentes podem subverter nossas intenções de fazer exercício poderia renovar nossa motivação para movimentar o corpo.

Estudiosos de fisiologia do exercício têm se impressionado há muito tempo com a diferença entre os desejos das pessoas de manter alguma atividade física e seu comportamento na realidade. Poucos de nós se exercitam com regularidade, mesmo que saibamos da importância disso para a saúde e o bem-estar. Normalmente, colocamos a culpa na falta de tempo, de locais adequados ou de habilidade. Mas, recentemente, um grupo internacional de pesquisadores começou a se perguntar se parte da causa não pode ser mais profunda.

Para uma análise anterior, esses cientistas examinaram pesquisas passadas sobre atitudes em relação a exercício e comportamento - e descobriram que as pessoas queriam sinceramente ser ativas, mas poucas iam adiante com essa intenção. Então, os cientistas pensaram que, talvez, algo estivesse acontecendo dentro de suas cabeças para diminuir seu entusiasmo pelo exercício.

Para o estudo, eles recrutaram 29 jovens, homens e mulheres saudáveis. Todos os voluntários disseram aos cientistas que pretendiam ser fisicamente ativos, apesar de poucos deles se exercitarem regularmente. Os pesquisadores instalaram em cada um deles eletrodos que registraram suas atividades elétricas cerebrais.

Os voluntários completaram, então, um teste de computador desenvolvido para pesquisar como eles se sentiam a respeito de exercícios. Cada um recebeu um avatar, com o formato de um boneco. Os avatares, controlados por eles, podiam interagir na tela com outras imagens de bonecos designados como ativos ou inertes. Por exemplo, a imagem de uma figura andando de bicicleta poderia aparecer, seguida quase instantaneamente de um desenho de uma figura deitada em uma rede.

Os voluntários foram orientados a mover seus avatares o mais rapidamente possível na direção das imagens em atividade e para longe das sedentárias - e, posteriormente, o contrário. Esse teste é conhecido como uma "tarefa de aproximação e fuga" e é tido como um indicador de como as pessoas se sentem, conscientemente, em relação ao que aparece na tela.

Quase todos os voluntários foram uniformemente mais rápidos movendo-se na direção das imagens ativas do que das sedentárias - e mais vagarosos ao evitar os mesmos bonecos em atividade. Todos eles preferiram conscientemente as figuras que estavam em movimento.

Em um nível inconsciente, porém, seus cérebros não pareceram concordar. De acordo com as leituras da atividade elétrica cerebral, os voluntários tinham de acionar muito mais recursos cerebrais para se mover na direção das imagens fisicamente ativas do que às sedentárias, especialmente nas regiões do cérebro relacionadas a inibir ações.

A atividade cerebral por lá era muito menor quando as pessoas se moviam na direção dos bonecos deitados nas redes, sugerindo que essas imagens tinham apelo mais forte no cérebro do que imagens de ciclistas, não importando a intenção consciente das pessoas.

"Para mim, essas descobertas pareceriam indicar que nossos cérebros são naturalmente atraídos para o sedentarismo", afirmou Matthieu Boisgontier, pesquisador pós-doutorando da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, que coordenou o estudo conjuntamente com Boril Cheval, da Universidade de Genebra, na Suíça.

Os resultados fazem sentido de um ponto de vista evolucionário, afirmou Boisgontier. "Conservar energia era necessário" para a espécie humana nos nossos tempos ancestrais, disse ele.

A lição do atual experimento é útil, afirmou Boisgontier. Pessoas relutantes em fazer exercícios "deveriam saber que não são as únicas", disse ele.

Os humanos podem ter uma inclinação natural para a inatividade. Mas nós também podemos, conscientemente, escolher a atividade, afirmou Boisgontier, apesar do que possam pensar os nossos cérebros.

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