Christian Behnke/Erdinger Weissbräu
Christian Behnke/Erdinger Weissbräu

Cervejas sem álcool são consumidas como bebidas esportivas na Alemanha

Atletas treinam e se recuperam com “a cerveja do motorista”

Ben Crair e Andrew Keh, The New York Times

29 Março 2018 | 10h15

Simon Schempp, biatleta olímpico alemão, encerra um dia cansativo de treinamento com uma garrafa de cerveja sem álcool. Ele aprecia a bebida, assim como a maioria dos alemães, que costumam consumi-la em quantidades maiores do que qualquer outro povo do mundo. Mas ele consome a variedade sem álcool e não apenas pelo sabor.

“É uma bebida realmente boa quando tomada imediatamente depois dos treinos ou das competições”, afirmou Schempp, que ganhou a medalha de prata na prova dos 15 quilômetros em fevereiro.

Esta opinião é comum na Alemanha. Enquanto a maioria das pessoas considera a cerveja sem álcool o substituto responsável da bebida comum, os alemães frequentemente a tomam em lugar das bebidas esportivas.

As cervejarias alemãs originalmente comercializavam a cerveja não alcoólica como a “cerveja do motorista” quando foi inventada, na Alemanha do Leste, em 1973. Há dez anos, Johannes Scherr, que ensina medicina esportiva na Universidade Técnica de Munique, observou que as fabricantes de cerveja  começavam a oferecer seus produtos não alcoólicos aos consumidores que prezam a saúde.

“Muitas companhias tentavam associar a cerveja, principalmente a não alcoólica, aos esportes”, ele disse. “Mas não havia nenhuma sustentação científica atrás disso”.

Scherr realizou um estudo, financiado por uma cervejaria, no qual ministrou diariamente cerveja não alcoólica a corredores da Maratona de Munique de 2009, por três semanas antes e duas semanas depois da competição. Estes corredores sofreram significativamente menos inflamações e infecções das vias respiratórias superiores depois da corrida do que os corredores que haviam tomado um placebo.

Se a cerveja não alcoólica ajudou os atletas a se recuperarem mais rapidamente, então ela poderia permitir que eles treinassem mais. Scherr atribui os efeitos positivos da cerveja não alcoólica à sua concentração elevada de polifenóis, substâncias químicas que aumentam a imunidade e são encontradas nas plantas com as quais ela é preparada.

“Depois disso, tínhamos a prova: ela é realmente saudável e esta não é apenas uma frase de marketing”, disse Holger Eichele, diretor executivo da Associação das Cervejarias Alemãs. De 2011 a 2016, o consumo de cerveja sem álcool alemã cresceu 43%, enquanto o aumento total do consumo da cerveja declinava. Os alemães bebem mais cerveja sem álcool do que qualquer outra nação, com a exceção do Irã. Há mais de 400 opções no mercado.

Muitas cervejarias comercializam os seus produtos não alcoólicos explicitamente como bebidas esportivas. A cervejaria Erdinger da Bavária anuncia sua cerveja de trigo não alcoólica com o lema: “100% de Desempenho, 100% de Recuperação”. A Heineken promove a sua cerveja não alcoólica com frases como esta: “não há limites para o que o corpo humano pode alcançar”, e recentemente concluiu um acordo para a venda do produto na McFit Fitness, a maior cadeia de academias da Alemanha. Na maioria das grandes maratonas alemãs, a cerveja não alcoólica está disponível para os corredores na chegada.

A Erdinger distribuiu 30 mil garrafas na Maratona de Berlim do ano passado.

Scherr costuma recomendar que os atletas bebam uma cerveja não alcoólica depois do exercício, mas um estudo de 2016 também descobriu que, antes de um esforço, ela ajuda os jogadores de futebol a se manterem hidratados em comparação com a cerveja comum e a água. Scherr acredita que ela beneficia a maioria dos atletas que praticam os esportes de resistência, e pode ser menos favorável nos sprints ou nas competições baseadas na força, em que a inflamação não é um problema.

Apesar dos benefícios, a bebida sem álcool tem mostrado que é mais difícil convencer os atletas de outros países. Quando o corredor etíope Guye Adola terminou em segundo lugar na Maratona de Berlim do ano passado, ele não tomou um gole sequer da enorme caneca de Erdinger não alcoólica que lhe entregaram.

“Fiquei apavorado, com medo de que contivesse álcool e eu não quis aumentar o meu desgaste”, ele disse. “No nosso país, nós não temos isto na chegada”.

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