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Céu noturno superlotado não de estrelas, mas de satélites

Sessenta objetos orbitais foram enviados pela empresa estadunidense SpaceX para conectar o planeta à internet; astrônomos afirmam que medida pode prejudicar pesquisa científica

Shannon Hall, The New York Times

15 de junho de 2019 | 06h00

No mês passado, a SpaceX lançou no espaço 60 satélites de 227 quilos. Logo os observadores amadores começaram a compartilhar imagens desses satélites no céu noturno, dando início a uma indignação entre os astrônomos, para quem o conjunto de objetos orbitais pode prejudicar a pesquisa científica e poluir nossa visão do cosmo. E esses 60 satélites são apenas uma gota no oceano. A SpaceX planeja lançar milhares de satélites - criando uma megaconstelação de estrelas falsas chamada Starlink que vai conectar o planeta inteiro à internet, introduzindo uma nova área de negócios para a empresa privada de voos espaciais.

Ainda que os astrônomos concordem que a oferta de um sinal global de internet seja um objetivo louvável, os satélites são brilhantes - talvez até demais. “Isso tem o potencial de alterar a aparência do céu noturno", disse o astrônomo Tyler Nordgren, que trabalha com a promoção da visibilidade do céu à noite.

Outras empresas, como Amazon, Telesat e OneWeb, também querem entrar para o ramo da internet espacial. Suas ambições para a construção de satélites em quantidade quase tão farta quanto a de torres da rede celular sublinha debates que remontam ao início da era espacial, envolvendo o uso adequado da fronteira final.

Embora as empresas privadas enxerguem grandes oportunidades de negócios na órbita baixa terrestre e além, muitos observadores do céu temem que o espaço deixará de ser “a província de toda a humanidade", como afirma o Tratado do Espaço Sideral de 1967.

Cada um dos satélites da SpaceX transporta um painel solar que captura o brilho do sol e o reflete de volta à Terra. O fundador e diretor executivo da SpaceX, Elon Musk, garantiu que os satélites serão (pouco) visíveis apenas nas horas que sucedem o crepúsculo e antecedem a aurora.

Mas imagens iniciais levaram muitos cientistas a questionar as afirmações dele. As primeiras imagens capturadas, por exemplo, revelaram um trem de objetos voadores tão brilhantes quanto a Estrela Polar. E embora um assessor de imprensa da SpaceX tenha dito que os satélites se tornarão menos brilhantes conforme assumem órbitas mais altas, alguns astrônomos calculam que os objetos serão visíveis a olho nu durante as noites de verão.

Quando seus painéis solares assumem determinado alinhamento, os satélites podem até causar um fenômeno de dispersão da luz, multiplicando brevemente seu brilho a ponto de serem comparáveis à estrela mais brilhante do céu, Sirius. Os astrônomos temem que tais reflexos ameacem a observação do céu e seu trabalho de pesquisa.

Sempre que um satélite passa por uma imagem do céu de exposição prolongada, o resultado é um fio brilhante - frequentemente arruinando a imagem e obrigando os astrônomos a recomeçar. Ainda que os operadores de telescópios já lidem com essas dores de cabeça há anos, a Starlink pode, sozinha, triplicar o número de satélites em órbita atualmente.

O Grande Telescópio de Levantamento Sinóptico, um telescópio de 8,4 metros em construção no alto de uma montanha chilena, logo poderá pesquisar a totalidade do céu. De acordo com uma estimativa, é possível que o telescópio tenha de lidar com um satélite da Starlink a cada duas imagens feitas durante as primeiras horas de escuridão.

“Chegamos a um ponto em que é necessário pensar no que vamos fazer", disse o astrônomo Ronald Drimmel, do Observatório Astrofísico de Turim, na Itália. Além de refletirem a luz, esses satélites também emitem frequências de rádio. Os pratos usados na astronomia por rádio são geralmente construídos em locais remotos, longe das torres de celular e estações de rádio. Mas, se o lançamento da Starlink for concluído - com a capacidade de oferecer recepção do sinal em qualquer lugar do planeta - as zonas de silêncio de rádio podem se tornar coisa do passado.

E alguns temem que a Starlink planeje operar em dois intervalos de frequência que os astrônomos usam para mapear os gases no universo - permitindo que observem a formação de planetas como Júpiter e outros gigantes, e como as galáxias se formaram imediatamente após o Big Bang. “Se esses canais de frequência se tornarem inacessíveis, nossa capacidade de aprender a respeito dos primórdios do universo será extremamente limitada", afirmou a astrônoma Caitlin Casey, da Universidade do Texas, em Austin.

O Observatório Nacional de Astronomia por Rádio, centro de pesquisas que mantém instalações em todo o mundo, disse estar buscando com a SpaceX formas de minimizar os impactos potenciais. O grupo propõe a criação de zonas em torno de algumas instalações de astronomia por rádio nas quais os satélites da SpaceX seriam desativados ao sobrevoá-las.

Apesar da indignação, Drimmel disse que não pede a paralisação da Starlink (Musk pediu à SpaceX que desenvolva uma maneira de reduzir o brilho dos satélites). “Não estou dizendo que a astronomia deve ser considerada como mais importante do que todo o resto", ponderou. “Deve ser possível alguma negociação, com concessões mútuas”.

Mas ele se preocupa com o impacto que a cultura humana sofrerá se satélites de sinal de internet alterarem para sempre o céu noturno. “O que me impressiona é pensar que, seja qual for nossa decisão, ela afetará todos no planeta"./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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