Hannah Price/The New York Times
Hannah Price/The New York Times

Para Chakaia Booker, escultora que usa pneus em suas obras, a arte está na jornada

Seu trabalho artístico transcende a vocação utilitária do material e desmente sua uniformidade

Siddhartha Mitter / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 05h00

Allentown, Pensilvânia – O estúdio de Chakaia Booker é um grande espaço sem aquecimento, com um telhado cheio de goteiras e infestado de esquilos. O piso tem sulcos com trilhos, que indicam sua vida passada como galpão de manutenção de bondes.

Agora, o galpão abriga uma área de marcenaria, uma serralheria, uma sala de cerâmica, além de ferramentas elétricas, cortadores de precisão e uma empilhadeira, porque os materiais usados por Booker são pesados e suas esculturas são grandes. E há pneus – empilhados em prateleiras, fatiados em rodelas, desfiados e amontoados desordenadamente.

Durante mais de 30 anos, Booker trabalhou principalmente com borracha automotiva. Na década de 1980, a artista recolhia pneus estourados no East Village de Manhattan, onde ainda mora. Agora, suas fontes incluem a Michelin, que envia pneus usados de carros e motos de corrida.

Marcante e idiossincrática, sua obra transcende a vocação utilitária do material e desmente sua uniformidade. As esculturas podem ser robustas e monumentais, ou finamente detalhadas e estranhamente macias. Algumas são quase figurativas, com a borracha cortada, dobrada e montada em camadas ou fios para evocar o corpo humano ou formas mais difíceis de entender. "As possibilidades são infinitas. Depende apenas da sua imaginação", disse Booker.

O compromisso da artista com a borracha pode gerar comparações com outros artistas – as peças de carro esmagadas de John Chamberlain, o lirismo metálico de Melvin Edwards –, mas é profundamente individual. "Ela é singular. Está empenhada em explorar o material até a exaustão – e claramente não há fim", afirmou Valerie Cassel Oliver, uma das curadoras da Bienal de Whitney, de 2000, que incluiu uma escultura de Booker. Algum tempo depois, Cassel Oliver a apresentou em Double Consciousness, pesquisa coletiva de arte conceitual negra no Museu de Arte Contemporânea de Houston, em 2005.

A primeira mostra de pesquisa com obras de Booker em uma década, e provavelmente sua maior até o momento, entrou em cartaz no Instituto de Arte Contemporânea de Miami e ficará em exposição até outubro deste ano. Em parte, trata-se de uma apresentação aprofundada de seu trabalho em borracha, que demonstra o alcance e a técnica da artista com o material. Misturando obras marcantes de sua carreira com outras menos conhecidas, a exposição inclui a escultura que esteve na Bienal de Whitney, It's So Hard to Be Green (É tão difícil ser verde, em tradução livre), do tamanho de uma parede, e uma nova versão de The Observance (A observância), elaborada instalação de borracha que dá título à exposição.

Mas esta também é abrangente e inclui pinturas, fotografias e gravuras feitas por Booker, além de seu primeiro amor, a cerâmica. Isso altera a percepção de que Booker utiliza apenas um material (ainda que de maneira espetacular) e demonstra uma prática mais ampla, ancorada na abstração negra, baseada no artesanato e em um etos de raízes urbanas, princípios que persistem em seu trabalho ainda hoje. "Há muito amor em seu trabalho. É a história de uma vida", definiu Alex Gartenfeld, diretor artístico do Instituto de Arte Contemporânea, que organizou a exposição de Miami com a curadora Stephanie Seidel.

A arte de Booker começa pela manhã, quando ela se veste. "Eu me esculpo todos os dias", contou ela. Sua aparência é memorável e, ao mesmo tempo, parte integrante do trabalho. Ela usava um capacete em forma de turbante, feito com dezenas de tiras de tecido e quadrados estampados, embrulhados, com nós e costuras. Esse capacete envolvia seu rosto e escorria como uma cascata sobre os ombros. De maneira similar, sua camisa também foi modificada, com uma arquitetura precisa e difícil de determinar. Apenas a parte de baixo das calças de trabalho da Dickies aparecia, sobre um par de tênis.

A integração entre arte e vida vestida pela artista é anterior à sua prática formal. "Sempre fui assim. Isso cresceu e evoluiu com meu trabalho. Essas coisas estão na minha paleta e me ajudam a criar o que faço", explicou Booker, comparando a criação de suas roupas com a composição.

Seidel disse que o elemento de performance que a coleta de materiais traz para o estúdio de Booker transmite uma orientação ética e até espiritual: "Ela não está apenas fazendo algo com pneus de borracha. Trata-se de uma meditação muito mais ampla sobre como interagir com seu ambiente."

Booker se mudou para Nova York no fim dos anos 1970, quando se instalou nos arredores do Tompkins Square Park, área no auge da boemia. "Foi uma combinação de tipos humanos. Mesmo as pessoas que não eram necessariamente artistas eram extremamente criativas, fosse na aparência física ou no que faziam", contou Booker.

Sua transição também foi gradual, explorando diferentes meios e exibindo suas obras apenas duas vezes na década de 1980. Mas seu projeto de longo prazo estava germinando na rua, de onde recolhia os pneus que se acumulavam pelo bairro, e nas experiências que fazia com eles em casa: "O material estava lá. Eu estava à procura, como todo mundo, e tentando coisas diferentes. Quando os pneus chegaram, entendi tudo! E não olhei mais para trás."

Em 2000, Booker era uma artista residente no Studio Museum do Harlem e participou da Bienal de Whitney – caminho que poderia ter levado ao estrelato. Fez parte da lista de artistas da galeria comercial Marlborough durante uma década. Mas tanto seu meio pouco ortodoxo como suas prioridades criativas a mantiveram longe dos holofotes.

Ela nunca alterou sua arte para que fosse aprovada. "As pessoas têm gostos diferentes, isso é o que importa." Segundo ela, o interesse por seu trabalho vem crescendo ao longo dos anos, à medida que uma geração de curadores mais jovem ganha influência.

Ao montar seu estúdio em Allentown, na Pensilvânia, por volta de 2005, Booker redobrou suas apostas e se distanciou ainda mais da cena nova-iorquina, enquanto ocupava um espaço de trabalho que não poderia pagar na cidade.

Seu trabalho com pneus gerou muitas linhas de interpretação – relacionadas ao declínio industrial, à ecologia da reciclagem, ao legado material do trabalho negro. Em Allentown, antiga cidade industrial, esses temas precisam de pouca explicação. "Basta olhar para cá", disse ela, gesticulando ao seu redor.

Atualmente, Booker tem obras em muitas coleções de museus e parques de esculturas; suas obras de arte pública, entretanto, são mais acessíveis. Uma instalação inaugurada em 2019 no Military Park, no centro de Newark, atraiu jovens que escalavam e se sentavam na obra, usando-a como cenário para apresentações de poesia em grupo, contou Salamishah Tillet, uma das curadoras do projeto.

De acordo com Tillet, embora a reutilização seja uma antiga preocupação na arte de Booker, o movimento Black Lives Matter colocou em primeiro plano a noção de que nenhum ser humano é descartável, injetando no trabalho dela uma nova relevância. "Se essa é a chave para a libertação, é muito empolgante quando uma artista manifesta isso em sua prática."

Apresentada com argumentos que os estudiosos fizeram sobre sua arte – a missão ecológica, as conexões com a exploração humana no cultivo da borracha, a afinidade entre seu trabalho figurativo e sua apresentação pessoal com as máscaras africanas –, ela não confirma nem nega o que foi dito e convida os espectadores a encontrar interpretações próprias.

O artesanato é seu eixo de progresso: "É a técnica que permite que as coisas funcionem. São as ferramentas, é pôr a mão na massa. É como querer algo e deixar acontecer. Você tem de ir além para que as coisas saiam do lugar."

Bem ao estilo dos anos 1970, o mais importante é a jornada. "Existem pneus até na lua. Eles não deixaram alguns equipamentos lá em cima? Se autorizarem, vou para lá!"

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