Nasa/Jet Propulsion Laboratory, via PBs
Nasa/Jet Propulsion Laboratory, via PBs

Chamadas vindas do espaço, mas ninguém responde

A Nasa passará 11 meses atualizando a única parte de sua Deep Space Network que pode enviar comandos para a sonda

Shannon Stirone, The New York Times

20 de março de 2020 | 06h00

A Voyager 2 viaja pelo espaço há 43 anos e agora está a mais de 18 bilhões de quilômetros da Terra. Mas, de vez em quando, algo dá errado. No final de janeiro, um erro disparou o desligamento de algumas de suas funções. “Todo mundo ficou extremamente preocupado com a recuperação da espaçonave”, disse Suzanne Dodd, gerente de projetos da Voyager no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, na Califórnia. Os gerentes da missão sabiam o que fazer. Eles enviaram comandos para restaurar suas operações, mesmo que demore cerca de um dia e meio para trocar mensagens com a Voyager 2.

Mas, pelos próximos 11 meses, eles não conseguirão enviar notícias à sonda (embora a sonda ainda possa transmitir dados de volta à Terra). Atualizações e reparos estão levando a Nasa a colocar offline um equipamento usado para transmitir mensagens por todo o sistema solar.

O tempo de inatividade é necessário por causa das missões a Marte, programadas para partir da Terra neste verão. Mas o desligamento temporário também destaca que a Deep Space Network está envelhecendo e precisando de atualizações caras. A Nasa se comunica com uma armada de espaçonaves no espaço profundo, exigindo as antenas de rádio mais poderosas do mundo. Para isso, a Nasa possui a Deep Space Network, ou DSN, na sigla em inglês.

A DSN compreende estações na Califórnia, em Camberra, na Austrália, e em Madrid. Está em operação ininterrupta há 57 anos e, sem ela, as naves espaciais que viajam além da Lua não poderiam se comunicar com a Terra. É usada não apenas pela Nasa, mas também pela Agência Espacial Europeia e pelos programas espaciais do Japão, Índia e, em breve, dos Emirados Árabes Unidos.

Neste verão, estão programadas quatro missões para Marte. Quando as naves espaciais chegarem, três precisarão de uma banda adicional para falar com a Terra (a China usará seus próprios canais para sua missão a Marte). Cada estação na Terra é equipada com três antenas de 34 metros e uma antena de 70 metros. Por causa da trajetória da Voyager 2 em relação à Terra, ela só pode falar com a antena de 70 metros de Camberra. E esta antena precisará ser aprimorada para as novas missões de Marte, provocando uma desmontagem temporária.

Como a Voyager 2 é considerada uma nave espacial “geriátrica”, perder o contato com ela é arriscado. Um dos maiores desafios é manter a antena de comunicação apontada para a Terra. Para fazer isso, a sonda dispara seus propulsores mais de uma dúzia de vezes por dia, com o objetivo de permanecer orientada.

A automação a bordo precisará ser perfeita durante quase um ano. Outra preocupação é a sonda ficar quente o suficiente. A equipe da Voyager tem desligado lentamente os instrumentos, para usar seus aquecedores para manter as linhas de combustível da sonda na agradável temperatura de zero graus Celsius.

“Fizemos a análise para mostrar que podemos superar o tempo de inatividade, com alguma margem de erro”, disse Todd Barber, engenheiro de propulsão da Voyager. Embora os gerentes da missão não consigam comandar a Voyager 2, eles ainda a ouvirão. Combinando o uso das outras antenas de Camberra, eles poderão coletar suas observações científicas.

As operações para restaurar a Voyager 2 durante seus recentes problemas demonstram quanta vida ela pode ter no espaço mais profundo, disse Dodd. Os instrumentos da sonda nunca tinham sido desligados dessa maneira. Para o deleite e surpresa dos gerentes de missão, todos foram trazidos de volta à vida. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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