Lauren Lancaster para The New York Times
Lauren Lancaster para The New York Times

Charles Ray ultrapassa os limites com uma fera

Artista é conhecido por suas esculturas figurativas em que ele reinterpreta uma estética histórica

Ted Loos, The New York Times

24 Maio 2018 | 10h00

WALDEN, NOVA YORK - O escultor Charles Ray, de Los Angeles, acordou às 5 horas da manhã e fez uma caminhada de quatro horas, como é seu hábito todos os dias, por razões médicas, aproveitando a oportunidade  para fazer uma reflexão solitária.

Só que, na ocasião, ele estava em Nova York, e para isso ia ao Central Park. Depois de recarregar as energias, entrou em um carro e foi até a fundição Polich Tallix, no Condado de Orange, para supervisionar o trabalho de alguns homens na estátua de um leão da montanha e um cão.

Ray, que é conhecido por suas misteriosas esculturas figurativas “a respeito de temas e convenções antigas”, como escreveu Roberta Smith em sua resenha no “Times”, no mês passado, estava na fase de conclusão do seu minucioso trabalho sobre novas versões de uma obra de 2017, “Leão da Montanha atacando um Cão”, para a exposição na Galeria Matthew Marks em Manhattan, onde ficará até 16 de junho.

A escultura de ferro fundido é composta de duas peças principais que se entrelaçam, em que a boca do leão se abre sobre o pescoço do cão - congelando no tempo o momento da morte. Ela resume a relação enigmática do artista com o seu tema. Mesmo quando esculpe uma cena da natureza, Ray traz à tona um elemento fantástico capaz de provocar uma reação.

O espectador não infere isto necessariamente do seu processo de criação, que está impregnado de uma visão histórica da arte e de preocupações estéticas. O seu é um processo angustiante, em que Ray medita longamente e tece reflexões filosóficas sobre cada aspecto da peça.

Basta pensar que as emendas do “Leão da montanha” ocuparam sua mente por um ano - ele não as “encoraja”, afirmou, mas frequentemente não consegue evitá-las. “Escultura e emendas são como pugilistas e narizes quebrados: são inseparáveis”.

As cinco novas peças da mostra constituem uma grande parte do trabalho que ele concluiu desde a sua retrospectiva de 2014-2015, exibida em Chicago, o que pode explicar o motivo pelo qual custam entre US$ 2 milhões e US$ 8 milhões cada uma. Considerando que se trata de um dos artistas mais importantes, Ray produz pouco. “O meu ritmo de trabalho é muito lento”, explicou.

Ray, 64, concluiu uma versão em prata com um brilho fabuloso. Perto dela, havia uma versão de aço inoxidável que exigiu um polimento especial.

Ele é talvez mais conhecido por “Menino com rã” (2009), obra  encomendada pelo magnata François Pinault, fabricante de artigos de luxo, para a praça em frente ao seu museu, na Punta della Dogana, em Veneza, mas posteriormente foi retirada do local. O nu foi adorado por muitos, mas outros o consideraram ofensivo.

Os seus próprios fãs admitem que os temas que ele escolhe às vezes suscitam efeitos imprevisíveis nos espectadores. “As pessoas podem ficar chocadas com o seu conteúdo provocador”, disse James Rondeau, presidente e diretor do Instituto de Arte de Chicago.

Após a visita à fundição, Ray contou que enviou uma escultura para um colecionador “juntamente com 12 engradados vazios. Expliquei que os 12 engradados vazios são o espaço que a escultura exige. Ele ficou muito perturbado”. Era uma brincadeira, ou talvez mais a formulação de um desejo, porque ele defende a necessidade de muito ar ao redor da sua escultura.

Para a exposição na Galeria Matthew Marks, Ray colocou três obras em um único edifício e, em um espaço adjacente, no prédio ao lado, instalou apenas mais duas. Ray costuma deixar um espaço inexplicável, aonde quer que vá.

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