Monica Almeida/The New York Times
Monica Almeida/The New York Times
Sarah Bahr, The New York Times - Life/Style

18 de fevereiro de 2021 | 05h00

Em um domingo abafado nos anos 50, na zona sul de Los Angeles, Cheech Marin, preso na igreja, ergueu os olhos para o teto. O que ele viu lá despertou o amor pela arte por toda a sua vida.

“Havia jovens retratados em longos lençóis andando nas nuvens”, em um mural acima da sua cabeça, contou Marin, 74, mais conhecido como a metade da dupla de comediantes Cheech & Chong. “E então olhei no canto e pensei: ‘Por que estes caras estão fazendo churrasquinho desse outro cara?’ Estas duas coisas foram a base da minha estética a partir daquele momento: e ela tinha de ser gloriosa e sangrenta ao mesmo tempo”.

Em meados dos anos 80, Marin, impulsionado por uma carreira cinematográfica florescente, deu o salto  passando de mero admirador de quadros de Rembrandt e de Vermeer nos museus à aquisição de obras. Mexicano-americano da terceira geração, ele concentra a sua atenção nos artistas chicanos, e reuniu uma das maiores coleções do gênero do mundo.

Agora, mais de 700 quadros, desenhos, fotografias e esculturas do seu acervo terão uma casa permanente na antiga biblioteca pública de Riverside, na Califórnia. Foram aprovados em janeiro pela Câmara Municipal da cidade planos e os recursos destinados ao Centro Cheech Marin de Arte, Cultura e Indústria Chicanas, que terá obras de artistas como Gilbert “Magú” Luján, Frank Romero e Carlos Almaraz.

O museu de arte e centro acadêmico, que deverá ser inaugurado nos próximos meses, pretende ser o primeiro espaço permanente do país dedicado exclusivamente à apresentação da arte e cultura mexicano-americana - um papel que Marin assumiu com absoluta seriedade.

“As pessoas ouvem falar em ‘arte chicana’ e pensam que é um cara dormindo debaixo de um cacto ou algo semelhante”, disse Marin. Mas para ele, a questão é descobrir o “sabor” da cultura mexicano-americana, em obras de artistas nascidos nos Estados Unidos e influenciados tanto por sua herança cultural mexicana quanto por sua criação à base de cereais Cheerios e do Tio Sam.

Os projetos do centro, que será administrado pelo Riverside Art Museum, estão em andamento há cerca de quatro anos. A prefeitura contribuirá com cerca de US$ 1 milhão ao ano graças a um acordo que se estenderá por 25 anos para cobrir os custos operacionais, enquanto o Riverside Museum está financiando os custos da reforma, US$ 13,3 milhões, do edifício da antiga biblioteca com uma verba de US$ 9,7 milhões do estado e de doações particulares.

A prefeita de Riverside, Patricia Lock Dawson, disse em um documento que espera ansiosa pelos dias depois da pandemia quando a instituição, que terá arte tradicional e contemporânea, poderá atrair milhares de visitantes para o histórico bairro Mission Inn da cidade. Ela espera também que a instituição seja benéfica para a comunidade de negócios local.

Mas, embora a medida referente à criação do centro tenha sido aprovada pela Câmara Municipal por 4 votos a 0, três dos sete membros se abstiveram, entre eles, Chuck Conder, por temer, segundo afirmou, que o acordo de 25 anos possa prejudicar as finanças da prefeitura a longo prazo. Ele o definiu como uma “traição” aos contribuintes em um momento em que a prefeitura luta financeiramente e enfrenta custos potenciais de US$ 19 milhões a US$ 32 milhões ao ano em consequência de uma decisão do tribunal sobre o uso das tarifas dos serviços públicos, informou a Press-Enterprise, um veículo de notícias local.

“Independentemente de como você os utilize”, afirmou Conder, “US$ 10 milhões são muito dinheiro para gastar com um museu que não deveria custar nada para nós”.

De acordo com as previsões, o centro poderá gerar US$ 3 milhões ao ano para a prefeitura nos primeiros dez anos de operação, com base em uma afluência anual esperada de 100 mil visitantes, informou a prefeitura. Atualmente, o Riverside Art Museum recebe cerca de 50 mil visitantes ao ano.

Marin se sente particularmente grato pelo fato de que a instituição, apelidada “The Cheech”, se localizará em Riverside, uma cidade a cerca de 80 quilômetros a leste de Los Angeles onde há uma considerável população de latinos. O centro está também próximo a cinco universidades, incluindo a Universidade da Califórnia, em Riverside, e a California State University, em San Bernardino, o que Marin espera que ajudará a tornar a arte e a cultura chicanas acessíveis aos estudantes.

Marin já doou 11 obras da sua coleção e planeja doar mais 500 quando forem construídas as instalações para o seu armazenamento, e também oferecer suas outras peças para serem leiloadas. A sua coleção, que foi exposta em mais de 50 museus aqui e na Europa, inclusive no Smithsonian, compreende desde arte pré-colombiana a peças modernas lenticulares (“Você conhece aquelas imagens de Cristo em que os seus olhos o seguem pela sala?” disse Marin. “Essa é arte lenticular.”)

A reforma do edifício deverá começar nos próximos meses, depois que a biblioteca acabar de se mudar para uma nova casa que está sendo construída a algumas quadras de distância. A Câmara Municipal destinou um contrato de US$ 10,7 milhões para a obra, que incluirá um novo telhado além do sistema HVAC (calefação, ventilação e ar refrigerado) e melhorias nos elevadores.

Marin disse que o edifício, um espaço do tamanho de um campo de futebol, oferece uma oportunidade de expansão - e ele pretende usá-la. “Quero instalar ali quanta arte pudermos adquirir”, afirmou.

Há muito ele vem declarando que o seu objetivo é “levar a arte chicana para a linha de frente do mundo das artes” - e isto o levará um passo mais perto.

“O meu lema sempre foi: não se pode amar ou odiar a arte chicana sem tê-la vista pessoalmente”, ele disse. “E agora as pessoas terão um lugar para vê-la sempre”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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