Jens Mortensen para The New York Times
Jens Mortensen para The New York Times

Chegou a hora de boicotar o rum venezuelano?

Esses dias, uma leitora me perguntou sobre o rum da Venezuela

Danny Hakim, The New York Times

18 Maio 2018 | 15h00

Ainda é ético beber rum venezuelano, dada a horrível situação política e econômica que passa o país?”, uma leitora escreveu em um e-mail. “Quem realmente é dono das fabricantes?”

O pano de fundo das perguntas é o crescente isolamento da Venezuela sob o governo socialista e autoritário do presidente Nicolás Maduro. A crise econômica do país causou problemas básicos de sobrevivência, como a escassez de alimentos que está matando as pessoas de fome.

Mas evitar os produtos do país é uma resposta adequada, ou mesmo justificável?

“Vivendo em um país como a Venezuela, você enfrenta dilemas éticos dia a dia”, disse Alberto Vollmer, presidente-executivo da Ron Santa Teresa, a produtora de rum mais antiga do país.

A economia da Venezuela hoje é dominada pelo petróleo, mas a história do rum na região remonta à era colonial. A bebida era feita a partir dos subprodutos que sobravam da transformação da cana em açúcar e se tornou moeda corrente na época.

Quem chamou minha atenção para o rum venezuelano foi Thor Halvorssen, ativista que dirige a Human Rights Foundation. Ele tem dupla cidadania - venezuelana e norueguesa - e acha que os boicotes deveriam se concentrar em governos repressivos.

“Promover boicotes que comprometem a liberdade de expressão de alguém não é uma boa ideia, porque esses ventos podem virar contra você”, disse ele.

Ele acredita que a compra de produtos de lugares como Cuba acaba ajudando governos repressivos. Mas tem uma visão mais nuançada da Venezuela e disse que a questão é mais situacional, a depender da empresa. Foi taxativo, porém, a respeito da Santa Teresa e de Vollmer, seu dono. “Ele atua como embaixador do regime”, disse Halvorssen. “Ninguém deveria comprar Santa Teresa”.

Talvez a afirmativa pareça severa demais. Vollmer, de 49 anos, trabalhou para reabilitar membros de gangues de sua região. Mas também causou polêmica por suas relações com Maduro e seu antecessor, Hugo Chávez.

Vollmer provocou ressentimentos principalmente quando, no ano passado, apareceu ao lado de Maduro, fez discurso, apertou sua mão com bastante entusiasmo e aceitou ajuda do governo em meio a turbulências econômicas.

“Ele recebeu subsídios do governo e depois foi à televisão elogiar o regime, na Venezuela e em outros lugares”, disse Halvorssen.

Conheci Vollmer no mês passado, em Nova York. É um executivo carismático, cujo bisavô era um comerciante de Hamburgo que acabou se casando com uma prima do herói da independência venezuelana, Simón Bolívar.

Ele expressou certo arrependimento. “Para mim, o principal dilema ético que tenho todos os dias é pensar: está certo continuar aqui?”, disse ele. “Estou colocando meus três filhos em perigo, tenho um bebê de 6 meses, um de 4 anos e outro de 6 anos, além, é claro, de minha esposa. Todos os dias eles estão lá, suas vidas estão em risco”.

Sua empresa sobrevive há 221 anos, e ele parece determinado a continuar, mesmo sob condições difíceis. “Em um ambiente tão polarizado, se você tentar ser neutro, todo mundo vai atacá-lo”, disse Vollmer. “Se você sair, se os caras do bem saírem, quem vai ficar lá?”.

Halvorssen acredita que deveria haver mais reflexão a respeito das condições políticas sob as quais os produtos são produzidos. “As pessoas são inteligentes quando se trata de fazer compra no mercado da esquina, de comprar ovos de galinhas que vivem livres de gaiolas”, disse ele. “Por que, então, as pessoas não têm uma política de comércio individual?”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.