Ratner/Reuters
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Chifres falsos de rinoceronte serão capazes de acabar com a caça?

Imitação convincente pode simplesmente complicar o tráfico de animais silvestres

Rachel Nuwer, The New York Times

04 de dezembro de 2019 | 06h00

Na África, 892 rinocerontes foram caçados por causa de seus chifres em 2018, uma queda em relação aos 1.349 animais caçados em 2015. Mas os especialistas dizem que a caça ainda é uma ameaça grave para a população de rinocerontes da África, que flutua em torno de 24,5 mil espécimes.

Agora, para ajudar a combater a prática, os cientistas criaram um convincente chifre artificial de rinoceronte feito a partir da crina de cavalos. “A ideia não é suplantar a presença de agentes de segurança, nem a vigilância da guarda florestal na proteção do hábitat dos rinocerontes", disse o biólogo Fritz Vollrath, da Universidade de Oxford. “Mas, sozinhas, essas medidas não foram suficientes para salvar o rinoceronte.”

O produto das pesquisas de Vollrath e seus colegas da Universidade Fudan, na China, tem aparência idêntica a de um chifre autêntico de rinoceronte quando observado sob o microscópio. A assinatura química é semelhante e o material se comporta como o chifre de rinoceronte quando é cortado ou raspado, e apresenta o mesmo cheiro quando queimado. Vollrath acredita que esse chifre artificial pode ser usado para inundar secretamente o mercado, reduzindo a demanda.

Elites endinheiradas da China e do Vietnã continuam a oferecer chifres de rinoceronte como presente e, no Vietnã, os chifres são levados a festas como forma de prevenir a ressaca. Na China, o chifre também é esculpido em joias e taças ornamentadas, e colecionado como investimento. Alguns acreditam que ele pode curar o câncer ou, ao menos, aliviar seus sintomas.

Para os críticos, um chifre falso de rinoceronte traz o risco de estimular a demanda por chifres de verdade, além de complicar o policiamento. “Os recursos para combater os crimes ambientais são sempre escassos, e não queremos dificultar ainda mais o trabalho", disse Olivia Swaak-Goldman, diretora da organização Wildlife Justice Commission, sem fins lucrativos.

Peter Knights, diretor da organização WildAid, disse que o mercado no Vietnã já é saturado com imitações convincentes, como o chifre de búfalo, que respondem por 90% daquilo que é vendido como chifre de rinoceronte. Ainda assim, o economista Frederick Chen, da Universidade Wake Forest, na Carolina do Norte, disse que a introdução de um produto que imita um chifre real mas depois apresenta defeito - chifres que se deterioram após a compra ou chifres que, uma vez consumidos, desencadeiam uma dor de barriga - poderia levar à redução da demanda. “É uma tentativa de criar confusão", disse ele.

O economista Solomon Hsiang, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, alertou que as tentativas de enfraquecer o mercado negro de marfim de elefante com a venda de marfim legal levou a um aumento na caça. Desenvolver um chifre falso de rinoceronte “parece uma abordagem tecnológica elaborada que não exclui graves riscos em potencial", disse Hsiang, quando seria melhor concentrar os esforços na redução da demanda.

Enquanto o chifre de rinoceronte for considerado valioso pelas pessoas, haverá mercado para ele, disse Lynn Johnson, fundadora da organização Nature Needs More. “Assim que conseguem dinheiro, os compradores buscam chifres autênticos", disse ela. "Os apelos por chifres falsos de rinoceronte mostram apenas a falta de compreensão da verdadeira natureza comercial e do apetite do consumidor alimentando a demanda atual". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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