Marcos Zegers para The New York Times
Marcos Zegers para The New York Times

Nossos queridos rios estão sob ameaça

A proteção às vias aquáticas precisa fazer parte de todos os planos de ação climática

Macarena Soler, Monti Aguirre e Juan Pablo Orrego*, The New York Times

04 de janeiro de 2020 | 06h00

Os rios da Patagônia Chilena escorrem de montanhas cobertas de neve passando por paredões de rocha e colinas a perder de vista, radiando uma coloração azul-turquesa com tonalidades de verde vivo e azul profundo. O Rio Puelo, o Pascua, o Futaleufú. Cada um é de tirar o fôlego, único como a paisagem que alimenta.

Mas esses rios, como tantos outros pelo mundo, estão ameaçados por projetos de represas que têm como objetivo abastecer cidades distantes e operações de mineração. Apenas um terço dos 177 rios mais longos do mundo continua correndo livremente, e apenas 21 rios com mais de 1.000 quilômetros mantêm um elo direto com o mar.

Se quisermos deter a mudança climática global, impedir que as fontes de água doce se tornem tóxicas e respeitar todos aqueles que dependem dos rios para sua sobrevivência, temos que devolver mais rios ao seu estado natural.

Durante décadas, os rios foram praticamente ignorados nos debates climáticos globais, como aquele encerrado em Madri no mês passado. Novas fontes de financiamento climático, como a Climate Bonds Initiative, podem logo se tornar disponíveis para projetos hidrelétricos de grande porte. Ainda que a energia renovável e o seu financiamento sejam uma parte importante das soluções climáticas, as barragens para geração de energia hidrelétrica não são a resposta.

A energia hidrelétrica não é uma tecnologia limpa e sustentável. Os rios ajudam a regular um ciclo global do carbono cada vez mais volátil, transportando matéria orgânica em decomposição da terra para o mar, onde ela se assenta no leito oceânico. Estima-se que isso absorva cerca de 200 milhões de toneladas de carbono ao ano, tirando-as do ar.

Como já documentou o cientista Philip Fearnside, do Painel Intergovernamental para a Mudança Climática, as grandes barragens, especialmente em rios tropicais como o Amazonas, funcionam como "fábricas de metano", emitindo em certos casos mais gases-estufa do que usinas elétricas movidas a carvão. No mês passado, em Madri, 276 entidades da sociedade civil participando das negociações climáticas das Nações Unidas pediram à Climate Bonds Initiative que excluísse os projetos hidrelétricos do financiamento climático.

As barragens hidrelétricas inundam grandes áreas de vegetação. Isso estimula a decomposição e a liberação de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso. Tomadas no seu conjunto, as represas hidrelétricas emitem um bilhão de toneladas de gases-estufa por ano. É algo comparável às emissões da indústria da aviação, que emitiu mais de 900 milhões de toneladas de gases-estufa em 2018.

O represamento dos rios afeta tanto as pessoas quanto os ecossistemas. Mais de 60 milhões de pessoas em países em desenvolvimento dependem de lagos e rios para o seu sustento. Estima-se que 80 milhões de pessoas tenham sido atingidas pela construção de barragens em todo o mundo. A ONU calcula que aproximadamente um milhão de espécies de animais e plantas estejam ameaçadas de extinção, ao menos em parte por causa do represamento, da poluição, do desvio para projetos de irrigação e da sobrepesca nos rios.

Faz mais de uma década que ambientalistas chilenos lutam contra projetos de represamento. Em 2006, a empresa chilena de energia Endesa propôs a construção de cinco grandes barragens na região de Aysén, área pouco povoada no sul do Chile que abriga alguns dos maiores campos de gelo do mundo fora da Antártica e da Groenlândia.

Esse projeto de represamento, chamado HidroAysén, teria inundado cerca de 15 mil acres de floresta para levar energia a cidades distantes e abastecer a indústria nacional do cobre, que responde por até 10% do PIB chileno. Mas a que custo?

Um estudo realizado em 2009 pela Universidade do Chile apontou que projetos de construção de grandes represas seriam desnecessários para atender às demandas energéticas futuras do país. As comunidades ameaçadas pelo HidroAysén se mobilizaram. Em todo o Chile, milhares de pessoas foram às ruas. Ambientalistas questionaram as represas propostas nos tribunais.

Apesar do entusiasmo inicial do governo para aprovar o projeto HidroAysén, a comissão ministerial arquivou o projeto em 2014, reconhecendo os significativos efeitos que sua construção teria em uma das regiões mais icônicas do Chile.

O movimento atual para a proteção dos rios que fluem livremente pela Patagônia se baseia na Lei de Rios Silvestres e Panorâmicos dos Estados Unidos, aprovada em 1968, que protege 21.586 quilômetros de fluxo livre divididos entre 226 rios em 41 estados e Porto Rico.

Várias organizações chilenas estão trabalhando na Ley Ríos Salvajes, uma campanha para a criação de leis de proteção dos rios silvestres. Isso coloca o Chile na vanguarda dos países que usam a proteção aos rios como forma de se adaptar à mudança climática e compensar seus efeitos.

Nossos esforços também se apoiam em desenvolvimentos recentes que resultaram na garantia de tais direitos a rios na Nova Zelândia e em Bangladesh. Muitas organizações internacionais contribuíram para o relatório “Heritage Dammed” [patrimônio represado], publicado em junho, pedindo que os rios recebam a mesma proteção que os Patrimônios da Humanidade da UNESCO banhados por eles.

Isso poderia conceder a alguns dos rios mais queridos do mundo - entre eles o Nu-Salween e o Tigre - proteção jurídica permanente contra o represamento, desvio ou poluição.

Os países que foram pioneiros no período mais intenso de construção de represas começaram a desmantelar ou aposentar parcialmente suas barragens. Nos EUA, mais de 1.600 barragens obsoletas foram removidas. O plano quinquenal atual para o desenvolvimento econômico e social da China inclui esforços para religar rios, contrariando anos de construção descontrolada de represas que contribuíram para o desaparecimento de mais da metade dos 50 mil rios do país.

Estamos nos organizando para proteger os rios do Chile de um destino semelhante. Os rios serão irrevogavelmente alterados se o governo chileno não garantir a sua proteção. Se a comunidade global se importa com o clima, é necessário agir muito mais pelos rios. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Macarena Soler é fundadora da Geute Conservación Sur. Monti Aguirre é coordenadora do programa latinoamericano da International Rivers. Juan Pablo Orrego é o presidente da Ecosistemas.

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