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Chimpanzés da savana adotam estratégias de sobrevivência

A observação desses animais traz importantes pistas sobre a evolução humana

Carl Zimmer, The New York Times

07 Maio 2018 | 10h15

Nove anos depois, Erin Wessling ainda se lembra da primeira vez que visitou Fongoli, uma savana no Senegal. “Parece que você está entrando num forno”, disse.

As temperaturas em Fongoli podem chegar a mais de 43ºC. Durante as estações secas, os incêndios varrem a paisagem, deixando as árvores sem folhas e a terra alaranjada. “É muito maluco”, disse Erin, hoje estudante do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Ainda assim, ela e seus colegas continuam voltando à savana. Porque ela é o lar de alguns residentes notáveis: os chimpanzés.

Para estudá-los, os cientistas quase sempre viajaram para florestas tropicais e bosques da África, onde os macacos vivem em grupos densos. As populações esparsas de chimpanzés que vivem nas savanas da África ocidental e central são muito menos compreendidas.

Como são nossos parentes vivos mais próximos, os chimpanzés podem nos dizer muitas coisas sobre nossa própria história. Milhões de anos atrás, nossos ancestrais simiescos passaram gradualmente dos bosques para as savanas e começaram a andar de pé. Os chimpanzés de Fongoli demonstram o quão difícil deve ter sido essa transição - e como esse desafio pode ter impulsionado nossa evolução, do desenvolvimento das glândulas sudoríparas até a perda dos pelos e o caminhar em postura ereta.

A savana se tornou tema de uma pesquisa de longo prazo em 2000, quando a conselheira de graduação de Wessling na Universidade Estadual de Iowa, Jill D. Pruetz, fez uma primeira visita.

Desde então, a equipe escreveu um catálogo de comportamentos estranhos. Os chimpanzés da floresta obtêm bastante líquido das frutas, então precisam de menos água potável e podem perambular mais em busca de comida. Já os chimpanzés de Fongoli precisam de água diariamente e não saem de perto das fontes mais confiáveis.

Enquanto os chimpanzés da floresta ficam ativos o dia todo, os chimpanzés da savana descansam por cinco a sete horas diárias. Jill D. Pruetz descobriu que eles se protegem em cavernas durante a estação seca e, na estação das chuvas, passam horas nas lagoas recém-formadas.

Chimpanzés da floresta dormem a noite toda em ninhos nas árvores. Mas os chimpanzés de Fongoli ficam agitados até tarde.  Pruetz descobriu que, depois do pôr do sol, eles passam horas à procura de comida. “Podia muito bem ser uma cena diurna”, disse ela.

Esses comportamentos sugeriam que os chimpanzés tiveram de batalhar para lidar com as condições adversas. Mas a especialista não sabia o que estava acontecendo dentro de seus corpos. Foi então Wessling recolheu amostras de urina.

A exemplo dos humanos, os chimpanzés têm na urina moléculas que refletem sua condição. Quando passam por estresse, seu corpo secreta o hormônio cortisol. O pâncreas produz peptídeo-c em resposta à comida. Seus níveis podem dizer se os chimpanzés estão recebendo energia suficiente. Se um chimpanzé fica desidratado, a proteína creatinina se acumula na urina.

Os chimpanzés apresentaram altos níveis de cortisol, indicando uma vida estressante. Seus níveis de creatinina também se revelaram altos, um sinal de desidratação.

Por mais que tentem diversas maneiras de se proteger do calor, os chimpanzés ainda sofrem com as altas temperaturas. “Esses chimpanzés estão fazendo tudo o que podem”, disse Pruetz.

Quanto aos primeiros humanos, Daniel E. Lieberman, paleoantropólogo da Universidade de Harvard, explicou que “como e quando os hominídeos conseguiram lidar com o calor é um problema fascinante e sem solução”.

Alguns pesquisadores acreditam que os primeiros hominídeos começaram a ficar de pé para alcançar as frutas das árvores. Peter Wheeler, da Universidade John Moores, de Liverpool, sugeriu que a postura ereta ajudaria os hominídeos a permanecerem mais frios em um ambiente árido. Na savana, andar de pé pode fazer a diferença.

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