Emile Ducke para The New York Times
Emile Ducke para The New York Times

China acirra tensões com extração de madeira na Rússia

Moscou aproveita investimento de Pequim, mas moradores lamentam desmatamento e risco de acidentes

Andrew E. Kramer, The New York Times

01 de agosto de 2019 | 06h00

KANSK, RÚSSIA - Durante o verão na Sibéria, caminhões madeireiros saem da floresta cobertos de lariços, pinheiros-da-escócia e bétulas a caminho de serrarias administradas por chineses. “Tudo aqui é chinês", disse um capataz de lenhadores, Wang Yiren, apontando para algumas das centenas de serrarias que brotaram nos anos mais recentes ao longo da ferrovia trans-siberiana.

Alimentar o colossal apetite chinês por madeira trouxe empregos e dinheiro à região, mas também ajudou a fazer da Rússia a líder global em desmatamento, instigando o temor de as cidades siberianas dedicadas à extração da madeira acabarem um dia sem fonte de renda.

Além disso, toda a manufatura de bens de consumo a partir da madeira é feita na China, país que restringiu muito a extração de madeira no seu território para preservar as florestas que restam. O acordo parece um esquema de exploração, mas foi aceito pelo governo russo.

A exportação de madeira russa para a China aumentou de US$ 2,2 bilhões em 2013 para US$ 3,5 bilhões no ano passado, de acordo com estatísticas comerciais russas. A Rússia costuma ser a líder global em desmatamento - perdeu cerca de 16,3 milhões de acres no ano passado, comparados a cerca de 9,1 milhões de acres perdidos na Amazônia. Já os chineses re-exportam parte da madeira russa sob a forma de móveis, portas, piso e outros produtos finais.

Se a busca chinesa pela madeira estimulou as economias locais na Sibéria, o movimento também inspirou ressentimento, sublinhando as promessas e armadilhas de um experimento econômico cujas implicações vão muito além de uma região remota. Os governos de Rússia e China, cada qual envolvido em uma disputa própria contra os Estados Unidos, prometem cooperar entre si em uma frente comum contra Washington. Mas pode haver limites para esse relacionamento.

Cerca de cem serrarias chinesas foram abertas nos cinco anos mais recentes apenas em Kansk, central da indústria madeireira com cerca de 100 mil habitantes, de acordo com Irina Avdoshkevich, vereadora da cidade que se opôs ao investimento chinês. Os chineses investiram em serrarias para transformar as árvores em madeira, mas não em um lado da atividade que costumava ser um pilar da economia local: o processamento de sobras de madeira e serragem para a produção de compensado, isolamento térmico e outros produtos.

Os moradores de Kansk ficaram particularmente infelizes quando os novos investidores decidiram não reativar a Usina Bioquímica de Kansk, fábrica da era soviética que produzia etanol a partir de sobras de madeira. Oficialmente, a substância era usada para propósitos industriais, mas também era consumida como uma iguaria local típica, conhecida como vodca de serraria. “Não havia nenhum sabor de conífera", disse o lenhador Sergey Solovyov. “Era álcool puro. Bastavam umas gotas de limão para a alegria total.”

Em vez disso, sob gestão chinesa, a serraria que fornecia a matéria-prima para o alambique permitiu que a serragem se acumulasse. O material se incendiou em 2017, com as chamas se espalhando pela área residencial, queimando mais de 50 lares. Irina pediu a intervenção da polícia e dos bombeiros locais, que respondem ao governo central da Rússia, mas eles nada fizeram para regulamentar as serrarias chinesas, disse ela.

“Entendemos a necessidade de investimentos", disse ela. “Mas, se decidirmos ser amigos, a divisão do benefício deve ser igualitária. Todos ficam com uma parte.” Várias operadoras chinesas de serrarias disseram que os russos não devem culpá-las pelos efeitos negativos do boom da exploração da madeira siberiana. Afinal, o governo russo é quem define as regras da atividade.

A maioria dos capatazes chineses adota nomes russos para facilitar a vida dos trabalhadores locais. Em uma serraria, um chefe chinês que se apresentou apenas com o nome russo adotado, Igor, gritava ordens em russo e chinês para a equipe mista de operários. Levando em consideração todos os aspectos, ele preferia trabalhar na China. Mas agora é tarde demais para isso, disse ele.

“Já derrubamos tudo", disse ele. Wang, que fala russo fluentemente e supervisiona a serraria vizinha, disse empregar cerca de 50 russos. “Isso deve durar mais cinco anos", disse ele a respeito da exploração chinesa da madeira. “Então, os russos vão começar a pensar, e acabarão proibindo a extração da madeira.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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