Khadija Farah para The New York Times
Khadija Farah para The New York Times

Uma visão artística (e crítica) da influência da China na África

País asiático é o maior parceiro comercial da África e maior responsável pelo boom da infraestrutura do continente

Abdi Latif Dahir, The New York Times

05 de março de 2020 | 06h00

NAIROBI, QUÊNIA – No quadro, um dos 100 sobre o mesmo tema, o presidente da China, Xi Jinping, aparece como em todos os anteriores: uma figura imponente em tamanho maior do que o real. Vestido com uma roupa branca flutuante, Xi está cercado por uma multidão de negros de mãos estendidas querendo os dólares que escapam de uma pasta.

A obra, que faz parte da coleção A China ama a África, é de um artista queniano, Michael Soi, que questiona o envolvimento de Pequim na África e analisa suas consequências para os cidadãos comuns. Os seus quadros luminosos em acrílico tornaram-se populares e polarizadores. Mas após seis anos, Soi anunciou que a série acabou. “Estou pronto para explorar outras coisas,” afirmou.

Soi faz questão de que o seu trabalho seja visto como um comentário social. “A minha obra em geral gira em torno do que os quenianos fazem ou experimentam, mas sem querer discutir”, ele disse. “Eu não busco a mudança com o meu trabalho. Eu me limito a documentar”.

Ele conta que soube que a série chegara ao fim no momento em que a China está se tornando um elemento ainda mais central no Quênia e em outros países da África. A China é a maior parceira comercial da África e o maior responsável pelo boom da infraestrutura do continente financiando e construindo rodovias, ferrovias, portos e palácios presidenciais.

Mas enquanto os governos africanos procuraram estreitar os laços com Pequim, muitos como Soi criticam asperamente esta parceria, afirmando que ela é “unilateral” e não passa de uma nova forma de colonialismo. Os líderes do Ocidente alertaram contra os crescentes investimentos chineses, alegando que sobrecarregam as nações com o ônus de uma dívida insustentável.

A presença da China na África também suscita rumores de suborno e destruição ambiental, assim como acusações de racismo. Pequim insiste que o seu relacionamento com os países africanos é baseado na igualdade política e em uma cooperação econômica favorável a ambas as partes, além da mútua assistência na segurança e da solidariedade nos negócios internacionais.

Soi questiona estas premissas, e retrata a China como a mais recente na longa série de potências estrangeiras preocupadas unicamente em pilhar os recursos naturais da África. Um dos seus quadros mostra a África como uma mulher que está sendo cortejada pela China, enquanto os países ocidentais, todos figuras masculinas, observam preocupados. Outro mostra líderes africanos adormecidos enquanto os chineses tomam conta da União Africana.

“Ninguém é filantropo sem uma razão aparente”, argumenta Soi. “Toda esta generosidade é suspeita. Eles sabiam de antemão da má liderança que existe na África e sabiam também que isto lhes permitiria chegar e explorar. Mas não devemos esquecer de que foram os líderes africanos que convidaram os chineses. Foram eles que trouxeram estes políticos corruptos interessados em aquisições maciças.”

Soi nasceu em Nairobi em 1972; seu pai é uma personalidade conhecida no país, Ancent Soi, sua mãe é uma professora. Ele nunca se casou, mas tem uma filha de 11 anos. Depois de concluir os estudos de arte e história da arte no Creative Arts Center de Nairobi, ele começou sua carreira no campo artístico como escultor em 1995, e sempre se serviu de suas obras para zombar do establishment. Seus trabalhos, luminosos e livres, humorísticos e mordazes, são um diário visual das realidades sociais econômicas e políticas de milhões de quenianos.

Soi foi criticado por pintar as mulheres de maneiras degradantes. A sua coleção A China ama a África frequentemente mostra as mulheres como prêmios disputados por uma ou outra potência imperial. Em um quadro, uma mulher, que representa a África, está na cama e está sendo acariciada pela China. “Os maiores críticos da minha obra são as mulheres”, admite. Mas ele afirma que “o patriarcado está vivo e forte nos países africanos”, e acrescenta: “E eu sigo os homens para contar a história do tipo de sociedade que somos”.

Os artistas quenianos foram elogiados, mas a maioria  dos que foram selecionados para representar o Quênia na Biennale de Veneza, em 2015, eram autores chineses que nunca haviam estado no Quênia. Soi produziu Vergonha em Veneza, uma coleção que destaca a corrupção e a má administração, que considera inerentes ao relacionamento entre o Quênia e a China. “Os chineses vieram aqui como deuses”, disse Soi. “Eles pensam que podem ter tudo o que querem, e em muitos casos podem. Mas é importante que eles saibam que não se pode vir e desrespeitar o povo  em seu próprio país.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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