Yan Cong para The New York Times
Yan Cong para The New York Times

China amplia repressão a mensagens publicadas no Twitter

Embora a plataforma seja proibida no país, a polícia continua a interrogar e deter usuários que burlam os censores

Paul Mozur, The New York Times

18 de janeiro de 2019 | 06h00

XANGAI - Um homem passou 15 dias num centro de detenção. A polícia ameaçou outra família. Uma terceira foi acorrentada a uma cadeira ao longo de oito horas de interrogatório. Seu crime: publicar mensagens no Twitter.

Numa acentuada escalada dos esforços de repressão online do país, a polícia chinesa está interrogando e detendo usuários do Twitter, embora a plataforma de rede social seja proibida na China e a imensa maioria da população não tenha acesso a ela. A repressão é a frente mais recente da campanha do presidente Xi Jinping para suprimir a atividade na internet. As autoridades estão ampliado seu controle para a vida dos cidadãos na rede.

"Se desistirmos do Twitter, perderemos um de nossos últimos espaços para o debate", disse Wang Aizhong, ativista que disse ter sido obrigado pela polícia a apagar mensagens criticando Pequim. 

Quando o governo não consegue fazer que os ativistas apaguem as mensagens, às vezes há outros dispostos a esse trabalho. Wang se recusou a apagar as mensagens publicadas. Então, certa noite no mês passado, enquanto ele lia um livro, seu celular vibrou com mensagens de texto enviadas pelo Twitter contendo códigos de acesso secundário à sua conta. 

De acordo com ele, uma hora mais tarde, 3 mil de suas mensagens tinham sido apagadas. Ele atribuiu a responsabilidade a hackers ligados ao governo, embora não tenha sido possível uma confirmação independente de quem teria sido o responsável e qual foi o método usado.

Faz tempo que a China policia aquilo que seus cidadãos veem e dizem, incluindo na internet, mas a recente investida mostra que a visão de Pequim para o controle da internet inclui as redes sociais de todo o mundo. Mensagens do WhatsApp, aplicativo proibido na China, começaram a ser usadas como evidências nos julgamentos chineses.

Pequim exigiu que Google e Facebook tirem do ar conteúdo ao qual as autoridades se opõem, ainda que esses dois sites sejam inacessíveis na China. Depois que o exilado bilionário chinês Guo Wengui usou as plataformas para fazer acusações de corrupção contra líderes do alto escalão chinês, Facebook e Twitter suspenderam as contas dele temporariamente, citando queixas de usuários e a divulgação de informações pessoais.

O Twitter pode ter sido proibido na China, mas a plataforma desempenha um papel importante no debate político. Para acessar o serviço, uma pequena e ativa comunidade usa um software para burlar o controle do governo que define o que as pessoas podem ver na internet. De acordo com uma estimativa feita com base num levantamento de 1.627 usuários chineses da internet no ano passado pela professora Daniela Stockmann, da Faculdade de Governo Hertie, na Alemanha, apenas 0,4% dos usuários da internet na China (ou cerca de 3,2 milhões de pessoas) usam o Twitter.

Embora a plataforma fique inacessível para os próprios chineses, canais oficiais de mídia como o jornal People's Daily e a agência de notícias Xinhua usaram o Twitter para moldar a imagem da China aos olhos do restante do mundo.

Os esforços de Pequim sufocaram os debates em mandarim no Twitter, segundo a pesquisadora Yaqiu Wang, do Observatório de Direitos Humanos. Ainda assim, nem todos os usuários aceitaram a mordaça.

"Mesmo quando são assediados e intimidados, eles são muito corajosos e continuam publicando mensagens no Twitter. Trata-se de um ato de resistência contra a censura e a opressão", disse Yaqiu.

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