Lisa Ross
Lisa Ross

China aumenta repressão contra minoria uigur

Acredita-se que a acadêmica uigur Rahile Dawut esteja em uma prisão secreta

Chris Buckley e Austin Ramzy, The New York Times

23 Agosto 2018 | 15h00

URUMQI, CHINA - Ela era uma das acadêmicas mais reverenciadas da minoria étnica uigur, no extremo oeste da China. Havia produzido muitos trabalhos e lecionado em muitos lugares da China e do mundo para explicar e celebrar as diversas tradições dos uigures. Sua pesquisa era financiada por ministérios do governo chinês e elogiada por outros estudiosos.

E, então, ela desapareceu.

A acadêmica Rahile Dawut, de 52 anos, disse a um parente, em dezembro do ano passado, que planejava viajar para Pequim, saindo de Urumqi, capital da região de Xinjiang, onde lecionava.

Desde então, ninguém teve notícias dela, e sua família e amigos mais próximos têm certeza de que ela foi secretamente detida, algo que faria parte de uma severa repressão aos uigures, grupo majoritariamente muçulmano que tem em Xinjiang sua terra natal.

A trajetória da professora Dawut - de célebre etnógrafa na Universidade de Xinjiang a presa clandestina - ilustra uma repressão mais ampla que assolou a vida dos uigures.

“Praticamente todas as expressões da singular cultura dos uigures agora são consideradas perigosas, e a maior evidência disso é o desaparecimento de Rahile Dawut”, disse Rian Thum, professor associado da Loyola University New Orleans, cuja pesquisa histórica sobre peregrinações e manuscritos uigures se baseia em estudos pioneiros da professora Dawut.

A região de Xinjiang demonstrou como Xi Jinping, presidente do país e líder do Partido Comunista, está determinado a redesenhar as fronteiras do que é permitido na religião, na pesquisa acadêmica, na sociedade civil e na expressão étnica.

Sob seu comando, o governo redobrou a antiga repressão aos uigures, que são considerados potenciais apoiadores da independência e do extremismo islâmicos. Para muitos dos 11 milhões de uigures de Xinjiang, sua terra natal se tornou um território sob vigilância, repleto de postos de controle, câmeras de segurança e patrulhas armadas.

Centenas de milhares de uigures foram presos em centros secretos de reeducação, por semanas, meses e até anos, estimam estudiosos e grupos internacionais de defesa dos direitos humanos.

“Como os uigures estão sob suspeita coletiva, qualquer acadêmico uigure que tenha contato com estrangeiros é considerado um ‘intelectual de duas faces’, desleal ao Estado e precisando de reeducação”, disse Rachel Harris, que estuda música uigure na Escola de Estudos Orientais e Africanos em Londres e é parceira acadêmica e amiga pessoal da professora Dawut.

Os uigures são um povo turcomano, de aparência, língua e costumes muito mais próximos aos dos povos da Ásia Central que aos dos han, que compõem a grande maioria da população chinesa. O governo chinês há muito desconfiava de sua resistência. O alarme oficial disparou depois de alguns tumultos com vítimas fatais em Xinjiang, no ano de 2009.

Depois que Xi Jinping chegou ao poder, em 2012, e designou um funcionário linha-dura do partido para administrar Xinjiang, o esforço para acabar com os dissidentes se acelerou. A Universidade de Xinjiang e outras instituições de ensino se tornaram o foco principal.

Em março do ano passado, vários chefes universitários foram substituídos e, logo depois, uma equipe de inspetores do partido informou que a universidade havia sido politicamente permissiva.

“O governo chinês, depois de prender uigures ricos e funcionários públicos uigures, começou a prender intelectuais uigures”, disse Tahir Imin, ex-aluno da professora Dawut, em Washington, onde mora. “Neste momento, posso listar mais vinte nomes, todos de proeminentes intelectuais uigures”.

Até recentemente, o trabalho da professora Dawut era bem recebido entre os burocratas chineses, fato comprovado pelos apoios e financiamentos que ela recebia do Ministério da Cultura. A professora ganhou reputação internacional como especialista em religiosidade, folclore, música e artesanato uigures.

“Fiquei profundamente atraída por essa cultura e esses costumes tão vívidos, tão diferentes dos relatos dos livros didáticos”, disse ela a um jornal de arte chinês em 2011. “Acima de tudo, estamos preservando e documentando essa herança cultural folclórica, não para que fique guardada arquivos nem sirva como material de exposições em museus, mas para que seja devolvida a seu povo”.

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