EPA via The New York Times
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China autoriza a venda de truta classificada como salmão

Consumidores estão questionando capacidade do país em policiar normas de vigilância sanitária

Tiffany May, The New York Times

02 Setembro 2018 | 11h00

HONG KONG - Durante anos, mercadores de peixe na China venderam como salmão algo diferente, de acordo com reportagem publicada na mídia local que deixou indignados os amantes de sushi no país. Agora, as autoridades de pesca chinesas responderam: do seu ponto de vista, não há problema nessa prática.

Recentemente, as autoridades chinesas declararam que a truta-arco-íris pode ser vendida como salmão, de acordo com novos critérios definidos por uma associação de pesca ligada ao governo e 13 pesqueiras comerciais. Para justificar a mudança na definição, as autoridades citam a biologia: o salmão e a truta-arco-íris pertencem à mesma família. Também foi exigido dos comerciantes que informem o tipo exato de peixe em outra parte da etiqueta.

Ainda assim, a definição incerta pareceu trazer lembranças ruins num país com histórico de problemas nas informações das embalagens dos alimentos e uma população de consumidores cada vez mais sofisticados. Milhares foram à internet criticar as autoridades por adotarem critérios de qualidade inferiores em vez de resolver o problema. Alguns declararam que jamais voltariam a comer salmão.Até os fregueses de um restaurante que serve sushi disseram não confiar mais no produto oferecido como salmão a ponto de comê-lo cru.

"Se encontro um salmão mais barato, difícil de distinguir de uma truta-arco-íris, eu peço outra coisa", disse a universitária Ma Xinyi, 20 anos.

A maior parte do salmão da Ásia passa a vida na água salgada. A truta-arco-íris costuma ser criada em tanques d'água ou lagos, situação em que ficam expostas a parasitas de água doce, que podem infectar humanos quando sua carne é consumida crua. Em Hong Kong, cidade chinesa que goza de legislação especial, é ilegal servir peixes de água doce crus.

A controvérsia da classificação do salmão é mais um capítulo de uma história de problemas do tipo que enfureceram o consumidor e lançaram dúvidas quanto à capacidade da China de policiar as normas de vigilância sanitária. Um produto químico chamado melamina, usado na fabricação de plásticos, foi encontrado em produtos lácteos que deixaram dezenas de milhares de crianças doentes em 2008. Em 2013, a polícia acusou comerciantes de venderem carne de rato como carneiro. Em 2014, a Walmart fez o recall de carne identificada como de jumento depois que testes apontaram a presença de carne de raposa.

As novas regras chegaram três meses depois que a mídia estatal circulou novamente uma reportagem em vídeo mostrando a indústria de pesca de água doce do reservatório de Longyangxia, na província de Qinghai. A pescaria seria responsável por um terço do salmão consumido na China. Isso atraiu o interesse de outros veículos de mídia, pois Qinghai é uma província do interior, distante do oceano. Reportagens subsequentes disseram que uma porção substancial dos peixes vendidos como salmão eram, na verdade, truta-arco-íris.

Embora seja possível vender a truta como salmão, mercados e restaurantes são obrigados a identificar a espécie do peixe e sua origem. Por exemplo, a etiqueta pode mencionar "salmão (do Atlântico)" ou "salmão (truta-arco-íris)".

A indústria chinesa da pesca afirmou que água de suas instalações é cuidadosamente controlada. A Associação Chinesa de Pesca, que representa a indústria, explicou que os consumidores podem ficar mais satisfeitos com a truta do que com o salmão. De acordo com o grupo, na Noruega e no Chile, "muitos fregueses locais preferem a truta-arco-íris, cujo preço é mais alto que o do salmão do Atlântico".

Mas, na internet, os usuários chineses ridicularizaram as afirmações que mencionavam o valor mais alto da truta-arco-íris, dizendo que preferem o bom e velho salmão, por favor, pois não podem correr o risco de uma infecção por parasitas.

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