Zach Blas e Jemima Wyman, via The New York Times
Zach Blas e Jemima Wyman, via The New York Times

China censura arte que questiona tecnologia

Artistas europeus, australianos e americanos não receberam explicações sobre os motivos que levaram à exclusão de suas obras da Trienal de Guangzhou

Amy Qin, The New York Times

27 de dezembro de 2018 | 06h00

HONG KONG - Robôs dotados de inteligência artificial. Órgãos humanos impressos em 3D. Sequenciamento do genoma humano. Talvez estes tópicos pareçam temas de interesse natural em um país determinado a ser o líder mundial nas áreas de ciência e tecnologia. Mas na China, várias obras de arte que analisam estas inovações são consideradas tabu.

Tais obras, que questionam as implicações sociais e éticas da inteligência artificial e da biotecnologia, foram retiradas este mês da Trienal de Guangzhou pelas autoridades culturais da província de Guangdong, no sul do país. 

Seus autores, artistas de Europa, Austrália e Estados Unidos, não foram informados quanto ao motivo oficial da exclusão de seus trabalhos da mostra, inaugurada no dia 21 de dezembro no Museu de Arte de Guangdong. Os curadores da exposição e os artistas concluíram que talvez eram demasiado relevantes e, portanto, tenham gerado um desconforto excessivo para as autoridades chinesas.

"A notícia revela uma grande preocupação com a edição de genes de bebês", disse Heather Dewey-Hagborg, artista digital americana cuja obra "T3511" faz parte do grupo excluído da mostra. "Parece realmente que chegou o momento em que a arte, bem como qualquer tipo de conteúdo que trate do futuro da biotecnologia, de certas vulnerabilidades e dos aspectos sombrios deste futuro, pode parecer perigosa".

A artista referia-se à notícia de que, no mês passado, o cientista chinês He Juankui anunciou ter criado as primeiras crianças editadas geneticamente em todo o mundo. "T3511" é um vídeo em quatro canais que conta a história de ficção de um biohacker que busca obsessivamente a pessoa que forneceu uma amostra anônima de saliva. Heather Dewey-Hagborg contou que sua finalidade é levantar questões de bioética.

Mas na China, onde as autoridades são frequentemente incentivadas a insistir na cautela e a priorizar a estabilidade social, provocar o debate público nem sempre é uma coisa bem-vista. 

"A questão da privacidade me deixa pouco à vontade e evidentemente, neste aspecto, esta obra é algo muito forte", afirmou Angelique Spaninks, uma das curadoras da mostra.

Entre os outros trabalhos proibidos estão "The Modular Body", ficção científica sobre o emprego de células humanas e órgãos artificiais com o objetivo de criar organismos vivos, de autoria do artista holandês Floris Kaayk.

Também foi excluído o trabalho "im here to learn so :))))))”, de Zach Blas e Jemima Wyman, um vídeo de quatro canais que ressuscita Tay, um robô dotado de inteligência artificial criado pela Microsoft, silenciado em 2016 depois de ter sido treinado pelos usuários para emitir opiniões de conteúdo fanático. Segundo Blas, os diretores de museus inicialmente pediram para cortar duas falas (uma obscenidade e uma referência a Adolf Hitler) antes que as autoridades culturais rejeitassem toda a obra.

Huang Yaqun, representante dos museus, disse que a decisão de cortar as obras baseou-se em parte em sua "incompatibilidade com o gosto e os hábitos culturais do público de Guangdong".

Os esforços para que uma mostra seja aprovada pelas autoridades frequentemente são uma negociação e um exercício complexo que pode depender da pessoa que ocupa o cargo no momento e também da situação local. 

"Em geral, são rejeitadas obras que se referem a temas políticos ou a questões internas ou a nudez", explicou Victoria Jonathan, do Festival Internacional de Fotografia de Jimei x Arles, que se realiza na cidade de Xiamen no sul da China. "Às vezes as autoridades fazem objeção a algo relacionado ao noticiário. Outras vezes, sua decisão não faz o menor sentido".

Angelique Spaninks disse esperar que as peças que permaneceram na mostra, intituladas "As We May Think: Feedforward", ainda pudessem suscitar um debate sobre ciência e tecnologia. A mostra vai até 10 de março. No entanto, Kaayk afirmou que se sente "muito frustrado".

"Mas não é a função precípua da arte contemporânea suscitar indagações e provocar discussões sobre temas importantes?", questionou. "Quais são as razões da China para organizar todas estas grandes manifestações de 'arte contemporânea' com grandes dispêndio de recursos se questões como a essência da arte contemporânea, a liberdade de expressão e a liberdade de pensamento são ignoradas e comprometidas?". / Zoe Mou contribuiu para a reportagem de Pequim.

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