Bryan Denton para o The New York Times
Bryan Denton para o The New York Times

China censura notícias sobre coronavírus e jornalistas contra-atacam governo

Repórteres chineses, impulsionados por pedidos generalizados de liberdade de expressão, estão resistindo às restrições do Partido Comunista

Javier C. Hernández, The New York Times

19 de março de 2020 | 06h00

Quando Jacob Wang viu notícias online sugerindo que a vida havia melhorado em Wuhan, centro da epidemia de coronavírus, ficou com raiva. Wang, jornalista de um jornal estatal chinês, foi às redes sociais para deixar a situação clara, postando uma mensagem incriminadora, em fevereiro, sobre pessoas doentes com dificuldade para obter tratamento médico em meio a uma burocracia disfuncional.

“As pessoas são deixadas à morte e estou muito irritado por causa disto”, declarou numa entrevista. O governo chinês, ansioso para proclamar vitória na “guerra do povo” contra o vírus, como afirmou o líder Xi Jinping, vem censurando notícias na mídia, perseguindo jornalistas e fechando sites informativos.

Os jornalistas chineses, incentivados pelo apoio da população, vêm contra-atacando o Partido Comunista no poder. Estão publicando informações de pessoas descrevendo as ocultações e falhas do governo no sistema de saúde, fazendo circular apelos pela liberdade de imprensa e usando a rede social para chamar a atenção para a injustiça e os abusos.

Muitos vieram a Wuhan antes de ser imposto um confinamento da cidade, em janeiro. Usando roupas e óculos de proteção eles se aventuraram nos hospitais para entrevistar pacientes e médicos, e se submetendo a testes de coronavírus após as visitas. Suas reportagens despertaram cólera na China ao mostrarem um governo que demorou para enfrentar a epidemia e trabalhou para silenciar qualquer pessoa que tentasse alertar para a propagação do vírus. A severa escassez de kits de teste em Wuhan, provocou a fúria dos moradores que exigiram saber como o governo podia estar tão mal preparado.

Caijing, uma revista de negócios, publicou entrevista com um especialista dá área de saúde, cujo nome não foi identificado, que admitiu que as autoridades em Wuhan haviam retardado o alerta de que o vírus se propagava de pessoa para pessoa. Caixin, um periódico de notícias, detalhou como as autoridades do setor de saúde ocultaram as primeiras evidências de que o vírus tinha semelhanças notáveis com a SARS, síndrome respiratória aguda, que causou uma epidemia mortal no globo em 2002 e 2003.

“Desta vez o controle da liberdade de expressão prejudicou diretamente os interesses e vidas das pessoas comuns”, afirmou Li Datong, editor de redação aposentado em Pequim. “Todo mundo sabe que esse tipo de grande desastre ocorre quando você não conta a verdade. Os esforços de Xi para limitar a veiculação de notícias independentes pode corroer a confiança no governo, afirmam especialistas.

Em janeiro, os jornalistas tiveram uma inusitada liberdade ação para investigar as falhas das autoridades locais para conter o vírus. Em nove janeiro a revista Caixin publicou uma das primeiras reportagens em profundidade sobre o vírus, informando que a misteriosa epidemia teria tido origem num bairro próximo a um mercado de frutos do mar em Wuhan.

Em questão de semanas, as autoridades ordenaram à mídia para limitar as histórias negativas. A pressão sobre os órgãos de imprensa aumentou depois da morte, em sete de fevereiro, de Li Wenliang, médico que foi silenciado pela polícia quando procurou alertar sobre o vírus. Milhões de pessoas tomaram parte numa revolta online em favor da liberdade de expressão, exortando o Dr. Li, que contraiu o vírus, como um Herói.

Muitos jornalistas ficaram consternados após a morte de Li, sentindo que deveriam ter feito mais para resistir às ordens do governo. “Senti como se fizesse parte do mal”, disse Jier Zhou, repórter de um jornal chinês. À medida que a censura se intensifica, os jornalistas têm ficado mais criativos.

Alguns têm se concentrado em reportagens sobre os erros cometidos pelas autoridades locais, e não os líderes nacionais, para evitar a censura. Outros compartilham dicas e fontes com seus colegas de organizações rivais, para o caso de suas próprias reportagens serem censuradas.

A mídia tem sido respaldada pelo público chinês. Em meados de março, a Profile publicou uma entrevista com um médico que havia sido alertado para não fornecer informações. O artigo desapareceu. Mas usuários de Internet rapidamente reintroduziram a matéria usando emojis, código Morse e linguagem obscura para reproduzir a entrevista de maneira a escapar dos censores.

O governo mobilizou 300 repórteres em Wuhan para relatarem histórias inspiradoras sobre a luta do partido contra o vírus. Apesar das restrições, muitos jornalistas chineses afirmam que estão dispostos a demonstrar que uma imprensa robusta consegue levar o governo a prestar contas e ajudar a China a se curar.

“Todos estão se sentindo reprimidos e enganados”, disse Tenney Huang, repórter de uma publicação estatal. “A liberdade de expressão é o caminho para contra-atacarmos”. Huang disse que os jornalistas continuarão a recorrer às redes sociais e outros instrumentos para continuar a divulgar seu trabalho. “Os fatos são como lenha. Quanto mais você amontoa, maior a força do fogo quando uma fagulha finalmente o acende”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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