Doug Mills/The New York Times
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China desafia domínio americano na Ásia

Todos os países asiáticos, atualmente, comercializam mais com a China do que com os Estados Unidos; concorrência pode definir o futuro do continente

Por Max Fisher e Audrey Carlsen, The New York Times

23 Março 2018 | 10h00

À medida que a China torna-se mais poderosa, desloca a preeminência americana de décadas em partes da Ásia. Os contornos dessa rivalidade estão definindo o futuro do continente.

Neste mês, um grupo com 11 nações assinou um acordo comercial que foi originalmente concebido como um contrapeso liderado pelos Estados Unidos para a China - mas após a saída do presidente Donald J. Trump, o pacto avançou sem os Estados Unidos. Foi a mais recente mudança na transição gradual do domínio americano para algo muito mais fluido.

As duas potências estão buscando reformular as economias e os sistemas políticos da região mais populosa do mundo à sua própria imagem.

Os recursos militares americanos ainda dominam a Ásia. Mas a China começou a exercer seu crescente poder militar e sua influência econômica para reordenar a região.

A mudança talvez acelere enquanto Trump estiver no poder, já que suas políticas externas e sua rejeição a acordos comerciais estão forçando nações asiáticas a repensarem suas estratégias.

Todo país asiático agora negocia mais com a China, muitas vezes por um fator de dois para um, e o desequilíbrio está só crescendo.

Mas outra métrica de grande influência no poder, a venda de armas, mostra o duradouro alcance dos Estados Unidos. Os países que compram armas americanas ligam suas políticas militares e externas com os Estados Unidos. Muitos países enfrentam uma escolha impossível entre a riqueza chinesa e a segurança americana. 

“Esses países não querem ter de escolher lados”, disse Tavi Madan, um especialista em assuntos asiáticos do centro de estudos americano Brookings Institution. Então eles não estão tomando lados. Em vez disso, a maioria está seguindo estratégias que visam o máximo de benefício de ambas as potências, minimizam os riscos de enfurecer qualquer uma delas e preservam suas independências. O continente será rachado por várias linhas conforme países aceitem, rejeitem ou lidem com a influência chinesa.

O Japão é um lembrete de que a China continua longe de se tornar uma potência no estilo americano. O país está se igualando ao crescimento chinês com seu próprio renascimento, alavancando sua economia - a terceira maior do mundo - para construir uma força militar independente e um conjunto de relações diplomáticas.

O Sri Lanka pode não parecer um indicador geopolítico. Mas os observadores da Ásia estão atentos ao que acontece por lá desde 2014, quando um submarino chinês navegou em um porto construído com investimento da China. Isso marcou uma nova era, na qual a China está convertendo seu poder econômico em poder militar - e, no caso de democracias mais pobres, em influência política.

Desde então, a China desenvolveu mais projetos de infraestrutura em toda a Ásia, particularmente em portos e corredores de trânsito estrategicamente vitais.

“Os chineses estão usando sua abundância de mão de obra, capital e força de trabalho para projetar sua influência”, disse Mira Rapp-Hooper, especialista em questões de segurança asiática da faculdade de direito da Universidade Yale.

Este é um modelo promissor para a China, cujas forças econômicas se ajustam às necessidades de pequenos países em desenvolvimento. E está lentamente estendendo esse modelo para além da Ásia, dando-lhe contornos do que poderia um dia ser uma rede global.

Mas muitos líderes asiáticos estão fugindo das grandes potências e tergiversando entre elas. Poucos o fizeram tão criativa e descaradamente como o presidente filipino Rodrigo Duterte.

Ao assumir o cargo em 2016, Duterte correu para Pequim para prometer cooperação e sugeriu que ele poderia terminar a aliança de 65 anos entre seu país e os Estados Unidos.

Duterte acabou conseguindo concessões de ambos os lados. Os americanos reduziram as obrigações do presidente filipino na aliança e garantiram a segurança de seu país. E os chineses ofereceram condições favoráveis em disputas marítimas e possíveis acordos de investimento. Ele nunca mudou de lado.

Essas histórias se espalharam pelo sudeste asiático. Pequim esperava que elas pudessem coagir países menores a aceitarem seu domínio. Washington queria dar vida a um bloco antichinês. Mas quase todos os países encontraram uma saída no meio do caminho.

Entretanto, a influência da China na região só pode crescer, especialmente se os Estados Unidos continuarem se retirando. Mira chamou a atenção para os escândalos na Austrália e na Nova Zelândia envolvendo a compra de influência chinesa.

"Esses países não poderiam estar mais alinhados aos nossos interesses, mas ainda há muito desconforto em se afastar do dinheiro chinês", disse ela.

Este é outro futuro possível: países sujeitos à influência de ambas as potências, com palpites americanos e chineses em suas economias e políticas. É um futuro que é americano e chinês, com nações no meio nem totalmente independentes, nem claramente alinhadas.

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