Lam Yik para The New York Times
Lam Yik para The New York Times

China encontra dificuldades para vender seus produtos

Pequim agora procura parceiros comerciais para substituir os Estados Unidos

Keith Bradsher, The New York Times

16 de agosto de 2019 | 06h00

PEQUIM - A China tem fábricas demais que produzem bens demais. Em consequência da guerra comercial punitiva deflagrada pelos Estados Unidos, o seu maior cliente no exterior não está mais comprando como antes. Por isso, a China procura novos clientes, entretanto, esta também poderá revelar-se uma façanha difícil. No mês passado, o país retomou os seus esforços para criar uma zona de livre comércio na região da Ásia-Pacífico, com o improvável objetivo de conseguir algum acordo até novembro. Se for bem-sucedido, o pacto poderá abrir mercados da Austrália à Índia.

Pequim tenta também manter vivas complexas conversações tríplices que reduziriam as barreiras comerciais entre China, Japão e Coreia do Sul. Em termos gerais, o país está reduzindo unilateralmente seus próprias tarifas sobre produtos procedentes do mundo todo, e ao mesmo tempo, em caráter de retaliação, aplica tarifas mais altas sobre os bens produzidos nos EUA.

O que está em jogo é a saúde da economia chinesa. No mês passado, a China informou que o seu crescimento encolheu registrando o seu menor ritmo dos últimos 30 anos, aproximadamente, em parte porque a guerra comercial com o governo Trump começou a afetar o seu crucial setor de exportações. As companhias multinacionais agora tentam transferir suas operações para outros países a fim de evitar uma guerra comercial que poderia estender-se por muito tempo. A China precisa de novos mercados para o que ela produz.

“É difícil substituir os EUA, mas é preciso tentar, é preciso diversificar”, disse Chen Dingding, professor de relações internacionais da Universidade Jinan em Guangzhou, na China. “Não queremos depender para sempre do mercado americano, embora ele seja muito importante”. Mas concluir pactos comerciais é algo complexo, e os parceiros potenciais da área de livre comércio da China têm inúmeras razões para estarem preocupados.

Nenhum país tem condições de absorver o enorme volume de tudo o que a China vende aos clientes americanos. Os seus vizinhos regionais competem contra ela em diversos setores. Por outro lado, a ela continua mantendo tarifas elevadas e outras barreiras a fim de proteger suas próprias indústrias - barreiras que teriam de cair para que outros países se tornassem seus parceiros.

O país registra um superávit anual no comércio de bens manufaturados de quase US$ 1 trilhão, o que significa que isto é muito mais do que ela vende para o mundo do que compra anualmente. Cerca da metade deste superávit é representado pelo intercâmbio com os Estados Unidos.

O total das suas exportações para os EUA caiu 8,5% no primeiro semestre deste ano, enquanto as suas exportações para o restante do mundo subiram  apenas 2,1%. O país registra um excesso de capacidade na fabricação de automóveis, aço e outros produtos fundamentais para o comércio global.

Uma nova redução da produção e o fechamento de fábricas poderão levar à perda de empregos e frear ainda mais o crescimento econômico. Diante da possibilidade de potenciais problemas econômicos, Pequim procura abrir novos mercados. O essencial nos seus esforços seria conseguir negociar um pacto de livre comércio asiático chamado Parceria Econômica Regional Abrangente, RCEP na sigla em inglês. Esta parceria abrangeria os dez países da Associação das Nações do Sudeste Asiático mais a Austrália, China, Índia, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul.

A Índia, com o seu tamanho e o seu crescimento acelerado, poderia tornar-se um forte comprador de produtos chineses. Mas ela protege os próprios mercados com as tarifas em média mais elevadas entre as maiores economias mundiais, e teme uma inundação de importações de produtos baratos da China.

E mesmo que esta consiga novos pactos comerciais, ainda sofrerá pressões para encontrar mercados capazes de absorver a enorme quantidade dos seus bens manufaturados, afirmou Brad Setser, antigo funcionário do Tesouro dos Estados Unidos. “Neste momento, não há absolutamente nenhum outro país no mundo disposto a substituir os Estados Unidos que registram um déficit comercial anual de cerca de US$ 400 bilhões em bens manufaturados com a China”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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