Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Prefeituras arcam com o peso do problema da dívida da China

Em Ruzhou, médicos e enfermeiras devem pagar por um novo hospital

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

19 de novembro de 2019 | 06h00

RUZHOU, China - Quando médicos e enfermeiros locais foram solicitados a ajudar sua comunidade com problemas econômicos, não se tratava de uma emergência médica, mas de uma emergência financeira.

Ruzhou, uma cidade de um milhão de habitantes na região central da China, necessitava urgentemente de um novo hospital, informaram os seus superiores. Os recursos, segundo os administradores, seriam fornecidos na forma de empréstimos dos próprios trabalhadores da saúde. Se os funcionários não tivessem o dinheiro, receberiam a indicação de bancos aos quais teriam de recorrer para tomá-lo emprestado e depois o entregariam ao hospital.

Nos quadros de avisos e na mídia local, muitos queixaram-se que se sentiam pressionados a arcar com empréstimos de milhares de dólares que não tinham condições de fazer. “É como acrescentar o insulto à ofensa”, dizia uma mensagem. Outras pessoas perguntaram à mídia por que funcionários que recebiam salários tão baixos teriam de pagar por projetos luxuosos.

Ruzhou é uma cidade que tem problemas de endividamento - um símbolo dos trilhões de dólares em débitos que ameaçam a economia chinesa.

Durante anos, os governos locais tomaram dinheiro emprestado a fim de criar empregos e manter as fábricas funcionando. Agora, a economia da China está reduzindo o seu ritmo como não acontecia há quase três décadas, mas Pequim continua mantendo as torneiras dos empréstimos para sanar os seus problemas de endividamento rigorosamente controladas.

Em resposta, um número cada vez maior de cidades chinesas está levantando dinheiro usando hospitais, escolas e outras instituições. Muitas vezes, elas lançam mão de complicadas operações financeiras, como acordos de leasing ou trusts, que estão um passo à frente das autoridades reguladoras de Pequim.

“Um leasing financeiro ou um trust, são os instrumentos das prefeituras para pedirem dinheiro emprestado”, disse Chen Zhiwu, diretor do Asia Global Institute da Universidade de Hong Kong. “As autoridades param um dia, e amanhã voltarão com outro instrumento”.

Estes acordos quase sempre acabam em decepções como o que aconteceu em Ruzhou, e os empréstimos não são reembolsados. Os credores acusaram três hospitais de Ruzhou e três fundos de investimento vinculados à prefeitura de não pagarem suas dívidas.

As autoridades locais vinham promovendo grandes gastos para que a economia continuasse crescendo. Ruzhou tem vários projetos extravagantes, como um estádio e um complexo esportivo que se tornaram centros de comércio eletrônico, hoje em grande parte não aproveitados. O projeto de urbanização de uma favela, iniciado há quatro anos para dar aos moradores das áreas rurais habitações novas, praticamente parou por falta de fundos, informaram os habitantes.

As autoridades de Ruzhou não responderam aos frequentes pedidos de comentários.

As dívidas ocultas de comunidades como Ruzhou constituem um dos maiores empecilhos para o Partido Comunista. Elas poderão comprometer todo o sistema financeiro da segunda maior economia mundial se provocarem uma reação em cadeia e se espalharem para outras partes do país, atingindo as pessoas comuns. Também impedem que Pequim contraia cada vez mais empréstimos como uma maneira de estimular o crescimento  econômico.

Ninguém sabe ao certo as dimensões do problema. Pequim afirma que o total é de cerca de US$ 2,5 trilhões.

Segundo Vincent Zhu, analista do Rhodium Group, uma empresa de pesquisa, o montante supera os US$ 8 trilhões.

Ruzhou, uma cidade cercada por minas de carvão na província de Henan, tomou emprestado e gastou para atender aos caprichos do governo chinês, o que ajudou a garantir que o governo pagaria por grande parte dos empréstimos contraídos.

Quando Pequim deu uma maior ênfase ao atletismo, a cidade construiu o complexo esportivo, com um estádio de 15.466 lugares, uma quadra de basquete coberta e um centro de convenções com um auditório construído no estilo do Grande Salão do Povo de Pequim.

E assim que a tecnologia se tornou a prioridade dos líderes chineses, Ruzhou rebatizou o complexo esportivo como centro de Big Data e E-Commerce, e construiu a Mansão do E-Commerce futurista em frente ao estádio. Hoje, as construções com a quadra de basquete e o auditório estão vazias, e eventualmente são alugadas para eventos.

Na China, construir este tipo de projetos exige alguma engenharia financeira. As prefeituras têm poder limitado para tributar e levantar empréstimos, porque para dispor destes recursos dependem dos fundos repassados pelo governo central e da venda de terras às construtoras. E isto nem sempre é suficiente.

Para tomar mais dinheiro emprestado, muitos criam financeiras do tipo fundo de investimentos, chamadas veículos de financiamento do governo central. Elas ajudam a captar recursos para grandes projetos de infraestrutura sem que as suas dívidas precisem ser divulgadas.

Não se sabe o que acontecerá com os projetos inacabados de Ruzhou. Dezenas deles estão parados, como se partes da cidade tivessem sido repentinamente abandonadas.

Em frente ao centro de comércio eletrônico, a construção aparentemente parou no complexo cultural composto por quatro edifícios. Uma faixa de um vermelho vivo foi colocada em um dos edifícios.

“Quatro lugares de mãos dadas”, ela dizia, e então invocando o slogan oficial da ascensão da China, “ juntas escrevendo o sonho chinês”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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