Yifan Wu
Yifan Wu

China avalia empresas e notas baixas podem ser arma da guerra comercial

Companhias estrangeiras temem que as classificações sejam usadas como verdadeiras armas contra elas

Alexandra Stevenson e Paul Mozur, The New York Times

05 de outubro de 2019 | 06h00

PEQUIM - A China está criando enormes bancos de dados com o objetivo de endurecer o seu controle sobre os seus cerca de 1,4 bilhão de habitantes. Mas agora o seu principal alvo é o mundo dos negócios. Pequim está colhendo um volume imenso de informações - desde decisões de tribunais, folhas de pagamentos, relatórios ambientais, violações de direitos autorais, até quantos funcionários são membros do Partido Comunista - utilizadas para classificar as empresas e as pessoas que as dirigem, de acordo com documentos da mídia estatal, documentos oficiais e especialistas. 

As companhias que recebem notas baixas podem ser proibidas de levantar empréstimos ou de realizar outras tarefas essenciais. As contas bancárias dos seus proprietários ou executivos poderão ser congeladas ou eles serão proibidos de viajar. O alvo não são apenas as empresas chinesas. Em cartas enviadas às companhias, as autoridades ameaçaram conferir notas negras à United Airlines, American Airlines e à Delta Airlines aos seus relatórios, se não atenderem às solicitações de Pequim.

A China o define um sistema de crédito social. No próximo ano, seus líderes esperam implementar um programa nacional que punirá ou premiará os próprios indivíduos. Este sistema pretende imitar o sistema de classificação de crédito de alguns países, e controlar o comportamento em um país em que as leis são aplicadas de maneira incoerente. Os defensores das liberdades civis alertaram que isto poderá criar um Grande Irmão digital que interferirá na vida de todos os dias. Mas a medida ainda não se materializou para os indivíduos em escala maciça.

Entretanto, para muitas empresas, já se tornou uma realidade. Em setembro, a agência de planejamento central informou ter concluído uma primeira avaliação de 33 milhões de empresas, conferindo classificações de 1, excelente, a 4, fraca. A China espera desse modo ajudar o Partido Comunista a manter na linha o mundo empresarial. Loren Fei, 30, filha do proprietário de uma fábrica de seda, foi incluída em uma lista negra de empresas e dos seus proprietários. Como seu pai não pôde pagar as suas contas, suas contas bancárias foram congeladas e ela não pode viajar.

As autoridades estão testando o sistema como instrumento para obrigar as empresas estrangeiras a dobrar-se à visão política do Partido Comunista. No ano passado, United, Delta e American receberam cartas da agência chinesa da aviação dizendo que a sua nota de crédito social poderá ser afetada, a não ser que os seus sites incluam Macau, Hong Kong e Taiwan como pertencentes à China. Notas mais baixas levarão a investigações, ao eventual congelamento de suas contas, a limitações da movimentação dos funcionários locais e a outras punições, segundo uma circular enviada à United, a qual The New York Times teve acesso.

O crédito social é um aspecto dos esforços do Partido Comunista sob o governo de Xi Jinping, o seu líder máximo, de fortalecer o seu poder sobre o país. As autoridades estão instalando uma tecnologia de reconhecimento facial separada e outros sistemas de monitoração para acabar com a dissensão e com a criminalidade. 

Pequim luta há muito tempo para obrigar as empresas a obedecer à lei. Os ministérios do governo que costumam competir entre si comprometem a aplicação desta legislação. O resultado é uma poluição generalizada, crescentes violações das leis trabalhistas e outros problemas.

Por exemplo, Loren Fei disse que há anos a fábrica da família recebeu das autoridades do governo local, ansioso por alcançar o crescimento econômico, a permissão para infringir as leis ambientais. A empresa acabou fechando por motivos ambientais. Mas as companhias não terão muitos recursos se os dados forem imprecisos ou as punições desproporcionalmente desastrosas, afirmam os especialistas.

“O sistema unificado de prêmios e punições amentará consideravelmente o potencial para que uma violação cresça como uma bola de neve em todas as operações de uma empresa, até a direção receber esta avalanche de punições, tornando impossível a sua operação enquanto o caso não for solucionado”, disse Kendra Schaefer, da empresa de consultoria Trivium China.

As companhias estrangeiras expressaram preocupação com a possibilidade de serem afetadas por seus parceiros de negócios. Elas temem também que o crédito social possa tornar-se uma arma na guerra comercial entre China e os Estados Unidos. Em um relatório de agosto, a Câmara de Comércio da União Europeia citou o exemplo da FedEx, a companhia americana de remessas de documentos e pacotes. A China ameaçou colocar a FedEx em uma lista de companhias estrangeiras que ela considera não confiáveis, alegando que infringiu a lei por reter os produtos da Huawei.

Loren descobriu que o seu nome constava do sistema durante uma viagem por motivo de trabalho no final de 2017, quando não pôde adquirir em casa uma passagem de trem. Então suas contas bancárias foram congeladas, e ela acabou demitida do sem emprego de analista financeira.

Loren havia assinado um empréstimo para ajudar o pai. Sua mãe também estava na lista negra, porque ser acionista e o pagamento mensal da sua aposentadoria foi congelado. A família deve centenas de milhares de dólares. Agora Loren vende produtos pela internet e disse que ganha um décimo do que ganhava antes. “Minha família na realidade quer restituir o dinheiro, mas o sistema não permite”, afirmou. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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