Sue-Lin Wong/Reuters
Sue-Lin Wong/Reuters

China enfrenta jovens comunistas ardorosos

Com base na ideologia de Mao, estudantes tentam coletivizar trabalhadores e encontram problemas com o governo

Javier C. Hernández, The New York Times

14 de outubro de 2018 | 06h00

HUIZHOU, CHINA - Eles eram exatamente o que as melhores universidades da China deveriam produzir: jovens homens e mulheres impregnados da ideologia do Partido Comunista Chinês.

Eles leram Marx, Lênin e Mao e formaram grupos estudantis para discutir o progresso do socialismo. 

Investigaram o tratamento dispensado ao proletariado do campus, inclusive os zeladores, cozinheiros e trabalhadores na construção. Ofereceram-se como voluntários para ajudar as famílias pobres das áreas rurais e recitavam obedientes os slogans do presidente Xi Jinping.

Então, depois de se formarem, tentaram pôr em prática os ideais do partido, reunindo-se em agosto em Huizhou, uma cidade do sul, para organizar sindicatos de trabalhadores nas fábricas e promover protestos a fim de reivindicar maior proteção para eles.

Foi então que o partido se deu conta de que estava diante de um problema.

A ação das autoridades foi rápida: dezenas de jovens ativistas foram presos e dos seus telefones foram apagados todos os pedidos de justiça - mas não antes de o seu exemplo se tornar um slogan para jovens insatisfeitos com a crescente desigualdade, a corrupção e o materialismo na sociedade.

“Vocês são a espinha dorsal da classe trabalhadora!” gritaram em um comício, falando aos operários de uma fábrica de equipamentos. “Compartilhamos de sua honra e da sua desgraça!”

Os protestos são comuns na China, principalmente de operários. Mas as manifestações em Huizhou foram inusitadas pelo fato de terem sido organizadas por estudantes e jovens recém-formados de algumas das mais famosas universidades do país, que, em geral, se mantinham distantes das ruas desde o movimento pró-democracia de 1989, que acabou com inúmeras mortes na Praça Tienanmen.

Os ativistas de Huizhou representam uma ameaça que as autoridades não esperavam.

Eles aderiram aos ideais que lhes foram transmitidos pelo próprio governo nas aulas obrigatórias de ideologia, expressando suas reclamações a respeito de questões como pobreza, direitos dos trabalhadores e igualdade de gênero - algumas das preocupações básicas do comunismo.

“O que estamos fazendo é totalmente legal e razoável”, disse Chen Kexin, um veterano da Renmin University de Pequim, que participou dos protestos. “Somos marxistas, enaltecemos o socialismo. Defendemos os trabalhadores. As autoridades não podem nos condenar”.

Mas condenaram. Na manhã de 24 de agosto, a polícia invadiu  o apartamento que os ativistas alugavam em Huizhou e prenderam cerca de 50 pessoas. Quando arrombaram a porta, os jovens levantaram as mãos e cantaram “A internacional”.

Embora alguns tenham sido soltos, 14 deles continuam presos juntamente com trabalhadores, ou em prisão domiciliar, segundo defensores dos direitos dos trabalhadores.

Apesar de se identificarem como maoístas, os jovens são decididamente não violentos, ao contrário dos rebeldes maoístas em países como Nepal e Índia. Também insistem que são bons comunistas que apoiam o presidente Xi.

Na internet chinesa, milhares de jovens participam de vibrantes salas de chat maoístas e marxistas, e alguns abriram sites de notícias de esquerda sem muita interferência dos censores, até pouco tempo atrás.

Zhang Shengye, 21, que se formou em junho na Universidade de Pequim, disse que sua participação nos protestos se inspirou nas lutas de sua família. Seu pai, que era marinheiro, foi demitido de uma empresa estatal durante uma onda de privatizações, nos anos 90.

Frustrado pelos salários baixos e o tratamento desigual dispensado aos trabalhadores do campus, ele e outros 60 estudantes, que se denominavam Associação de Pesquisa Marxista, publicaram um relatório documentando as violações trabalhistas.

“Simplesmente simpatizamos com a luta dos trabalhadores e com sua aspiração a um futuro melhor para o comunismo”, afirma.

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