Gilles Sabrié para The New York Times
Gilles Sabrié para The New York Times

Cientistas temem que China espie grupos étnicos em estudo sobre DNA

Autoridades chinesas estão tentando aproveitar a tecnologia para rastrear grupos minoritários

Sui-Lee Wee e Paul Mozur, The New York Times

20 de dezembro de 2019 | 06h00

PEQUIM - Os esforços da China para estudar o DNA das minorias étnicas do país provocaram uma reação da comunidade científica global, pois os cientistas alertam que Pequim poderia usar seu conhecimento crescente para espionar e oprimir seu povo. Duas editoras de revistas científicas de prestígio, Springer Nature e Wiley, disseram recentemente que reavaliariam os trabalhos publicados anteriormente sobre tibetanos, uigures e outros grupos minoritários.

Os documentos foram escritos ou coescritos por cientistas apoiados pelo governo chinês. Ambas as editoras querem garantir que os autores obtiveram o consentimento das pessoas que estudaram. A Springer Nature, que publica a revista Nature, também disse que estava endurecendo suas diretrizes quanto ao consentimento.

As autoridades chinesas estão tentando aproveitar a tecnologia para rastrear grupos de minorias. A questão é forte em Xinjiang, na fronteira ocidental da China, onde as autoridades prenderam mais de um milhão de uigures e outras minorias muçulmanas em campos de concentração, em nome do combate ao terrorismo. 

As empresas chinesas estão vendendo sistemas de reconhecimento facial que, segundo elas, podem dizer quando uma pessoa é uigur. As autoridades chinesas também coletaram amostras de sangue de uigures e outros para criar novas ferramentas para rastrear grupos de minorias. Os cientistas e empresas ocidentais forneceram ajuda para alguns esforços, muitas vezes involuntariamente.

Quando os periódicos ocidentais publicam esses documentos, é como se vendessem uma faca a um amigo "sabendo que seu amigo usaria a faca para matar sua esposa", disse Yves Moreau, professor da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica. Em 3 de dezembro, a Nature publicou um ensaio de Moreau pedindo que todas as publicações excluíssem documentos escritos por cientistas apoiados por agências de segurança chinesas que se concentrassem no DNA de grupos étnicos minoritários.

Moreau e outros cientistas temem que a pesquisa da China esteja sendo usada para criar métodos para monitorar e subjugar as minorias étnicas do país. Eles também temem que a pesquisa de DNA viole regras científicas amplamente seguidas que envolvam consentimento. Dizem que em Xinjiang é impossível verificar se os uigures deram suas amostras de sangue por boa vontade. As autoridades chinesas não responderam às solicitações de entrevistas.

Em setembro, Moreau e outros pediram a Wiley que excluísse um artigo sobre os rostos das minorias publicado no ano passado, citando o potencial abuso e o tom de discussão sobre raça. A Wiley inicialmente se recusou, mas disse recentemente que reconsideraria. 

Em fevereiro, uma revista chamada Frontiers in Genetics rejeitou um artigo baseado em descobertas do DNA de mais de 600 uigures. Alguns de seus editores citaram o tratamento dos uigures pela China como justificativa, disseram pessoas familiarizadas com as deliberações.

Cientistas como Moreau não estão pedindo uma proibição geral da pesquisa chinesa sobre a genética das minorias étnicas da China. Ele fez uma distinção entre campos como medicina, onde a pesquisa visa o tratamento de pessoas, e forense, que envolve questões de justiça criminal.

Dos 529 estudos no campo da genética forense publicados entre 2011 e 2018, segundo Moreau, cerca da metade tinha um coautor da polícia, militar ou do judiciário. Ele também descobriu que os tibetanos eram mais de 40 vezes mais estudados que a maioria étnica han da China e que a população uigure era 30 vezes mais intensamente estudada que os han.

Nos últimos oito anos, ele descobriu que três periódicos - um da Springer Nature e dois da Elsevier - publicaram 40 artigos com coautorias de membros da polícia chinesa que descrevem o perfil do DNA de minorias tibetanas e muçulmanas. Tom Reller, porta-voz da Elsevier, disse que a empresa está produzindo melhores diretrizes. "A comunidade precisa dar um passo importante e dizer: 'Isso não nos representa'', disse Moreau. TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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