Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Na China, estudantes-espiões restringem expressão dos professores

Uma campanha para tornas as universidades bastiões do Partido Comunista Chinês

Javier C. Hernández, The New York Times

07 de novembro de 2019 | 06h00

CHENGDU, CHINA - Com uma mochila vermelho-neon e um par de tênis Adidas, o estudante de química Peng Wei, 21 anos, se parece com qualquer outro aluno da Universidade de Sichuan, no sudoeste da China. Mas Peng é um dos cada vez mais comuns “agentes estudantis de informação”, que mantêm registros dos pontos de vista ideológicos de seus professores. Eles estão lá para ajudar a extirpar professores que demonstrem qualquer sinal de deslealdade em relação ao presidente Xi Jinping e o Partido Comunista que governa o país.

“É nosso dever garantir que o ambiente de aprendizagem permaneça puro”, afirmou Peng, “e que os professores estejam seguindo as regras”. Num retrocesso à era de Mao Tsé-tung, as universidades chinesas estão mobilizando estudantes para vigiar seus professores, como parte de uma campanha de Xi para eliminar a dissidência e tornar as universidades bastiões do partido.

O uso de alunos-informantes disparou sob o governo de Xi, o mais poderoso líder chinês em décadas, com centenas de universidades passando a empregar essa prática, de acordo com entrevistas com mais de duas dezenas de professores e estudantes e análise de documentos públicos.

“Todos sentem que estão em perigo”, afirmou You Shengdong, um experiente professor de economia da Universidade Xiamen, no leste da China, demitido no ano passado após ser denunciado por criticar um dos slogans de propaganda preferidos de Xi. “Como podemos progredir?”, questionou You. “Como podemos produzir descobertas com esse clima?”

Universidades estão publicando anúncios recrutando estudantes para espionar seus professores, e algumas tentam manter um aluno-espião em cada turma. Isso tem criado um efeito amedrontador, que alguns têm comparado às campanhas de purificação ideológica ocorridas durante a década da Revolução Cultural (1966-1976), na qual estudantes radicais atacavam quem era percebido como inimigo de Mao.

Os estudantes estão cada vez mais desempenhando um papel-chave no monitoramento do ponto de vista dos professores a respeito de Xi, do partido e de conceitos como democracia. Em troca, lhes são prometidas recompensas como bolsas de estudo, notas mais altas e avanços nos grupos prestigiados dentro do Partido Comunista. Professores e estudantes descreveram mais de uma dezena de exemplos nos quais, desde o ano passado, professores de universidades chinesas foram demitidos ou punidos após alunos terem registrado relatórios contra eles.

A proliferação dos alunos-informantes tem causado preocupações entre acadêmicos e estudantes, que consideram a prática uma nova tentativa de sufocar o debate em sala de aula. Todas as universidades no país são controladas pelo partido, que aponta os mais graduados funcionários administrativos das instituições e controla comitês partidários nos campi. 

“Os professores podem ser denunciados por qualquer coisa”, afirmou Tang Yun, um professor veterano de literatura da Universidade Normal de Chongqing, no sudoeste da China. Quando dava uma aula no começo deste ano, o professor Tang, 56 anos, criticou uma frase popular usada com frequência por Xi - “arregasse as mangas e trabalhe duro” -, qualificando-a como tosca. Um estudante reclamou, fazendo com que a diretoria da Universidade Normal retirasse as credenciais de ensino do professor e o designasse para trabalhar na biblioteca.

Alguns estudantes assumem uma posição expansiva em relação à função, vigiando não somente o que os professores dizem em aula, mas também suas vidas particulares, incluindo seus gostos literários e filmes preferidos, afirmaram informantes em entrevistas. Peng afirmou que também conversa regularmente com outros estudantes para obter informações a respeito dos professores, incluindo aspectos como seu caráter, seus valores e seu patriotismo.

Ele rejeitou a ideia de que a ascensão dos informantes estaria prejudicando o debate em sala de aula e disse que as universidades chinesas ignoraram as posições dos estudantes por tempo demais. O Ministério da Educação não respondeu a um pedido para comentar a situação.

A pasta emitiu novas regras de ética para professores de todos os níveis no ano passado, afirmando que eles não deveriam adotar nenhum tipo de ação para contradizer a autoridade do partido. Professores afirmam que o uso de alunos-informantes está provocando um clima de medo nas salas de aula.

You afirmou que estudantes o denunciaram por questionar o slogan de Xi: “O sonho chinês”, uma visão de prosperidade e força para a nação. You disse que falou aos estudantes que sonhos são “delírios e fantasias - não ideais”. You, 71 anos, que se mudou para Nova York desde então, afirmou que os alunos começaram a se referir a ele como extremista e “anticomunista”.

Na Universidade Normal de Chongqing, Tang qualificou a decisão de impedi-lo de lecionar como “a pura ignorância do poder”. Depois de a instituição de ensino ter retirado suas credenciais de professor, ele publicou uma mensagem nas redes sociais afirmando que não culpa os estudantes e que “nem todos eles são Judas”. “Saio hoje vestindo os trajes da vergonha”, escreveu Tang. “Mas amanhã certamente retornarei contemplado por uma coroa de louros.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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