Bryan Denton / The New York Times
Bryan Denton / The New York Times

Publicações de livros norte-americanos estão desacelerando em Pequim

Editoras dentro e fora da China afirmam que a publicação de livros oriundos dos EUA está praticamente parada, o que lhes impede de ter acesso a um enorme número de leitores

Lin Qiqing e Paul Mozur, The New York Times

26 de janeiro de 2020 | 06h00

XANGAI – Estados Unidos e China assinaram um acordo inicial de comércio no dia 15 de janeiro, concordando com uma pausa no conflito econômico, mas os problemas estão longe de ter sido resolvidos. As editoras dentro e fora da China afirmam que a publicação de livros americanos está praticamente parada, o que lhes impede de ter acesso a um enorme mercado de leitores vorazes.

“Escritores e acadêmicos americanos são muito importantes em todos os setores”, afirmou Sophie Lin, uma editora de Pequim. “O problema nos afetou profundamente, e afetou a indústria”. Quando novos títulos não conseguiram a aprovação, ela disse, a sua editora parou de editar e traduzir cerca de dez obras pendentes a fim de reduzir os custos.

O mundo chinês do livro teme que obras americanas possam ser visadas em futuras campanhas de censura. No governo de Xi Jinping, o líder supremo da China, o Partido Comunista procurou reduzir a influência da mídia externa para dar mais espaço a livros, filmes e programas de televisão chineses.

Os que trabalham no setor de publicações relutam em falar com medo de chamar a atenção de Pequim por ousar manifestar-se. Uma lista de livros programados para publicação no ano passado contém best-sellers e títulos acadêmicos que não apareceram no mercado como havia sido prometido. “As editoras chinesas mudarão definitivamente o seu foco”, afirmou Andy Liu, também editor de Pequim. “Publicar obras americanas hoje é um negócio arriscado”, alertou. “É algo que abala a própria premissa de tentar introduzir livros estrangeiros” como negócio em si.

Censura

A China adota notoriamente a censura, no entanto, é também um enorme mercado livreiro, inclusive de obras internacionais. Ela se tornou o segundo maior mercado editorial depois dos Estados Unidos, segundo a Associação Internacional de Editores, como país afluente com um público de elevada formação que busca leituras sofisticadas.

Ainda é possível encontrar em livrarias reais e virtuais alguns livros estrangeiros que poderíamos talvez conseguir driblar os censores do Partido Comunista. 1984, de George Orwell, ficção que condena o totalitarismo, é amplamente lido por ser considerado um clássico da literatura mundial. Diversos livros de Ayn Rand, a santa padroeira do capitalismo da extrema direita, foram traduzidos para o chinês.

Em 2017, compradores chineses obtiveram os direitos autorais de mais de seis mil livros americanos, o que representa mais de 30% de todos os livros estrangeiros. The Kite Runnrr (O caçador de pipas no Brasil), romance de Khaled Hosseini sobre as turbulências no Afeganistão, foi uma presença assídua na lista de mais vendidos da China, assim como a biografia de Walter Isaacson do co-fundador da Apple, Steve Jobs.

Autores de outros países foram afetados pelas idas e vindas da diplomacia chinesa. No entanto, a concessão de permissões para a publicação de livros japoneses tornou-se mais fácil no ano passado, afirmam pessoas do setor, porque Pequim procurou abrandar as suas relações com Tóquio.

De qualquer modo, a publicação de livros tem sido um processo contencioso na China. Para obter a aprovação do governo, as editoras chinesas frequentemente cortam ou mudam o seu conteúdo sexual ou político.

Edward Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional, que revelou os detalhes de várias operações dos sistemas de vigilância do governo americano, escreveu no Twitter que na versão chinesa da sua autobiografia haviam sido cortadas menções à censura chinesa, e também à Primavera Árabe.

Alguns veem uma desaceleração da publicação de livros americanos que está ocorrendo na China como um preocupante congelamento do intercâmbio de ideias.

Suzanne Nossel, diretora do PEN America, associação de escritores, escreveu em um e-mail: “Considerando o enorme fosso existente em termos de compreensão e comunicação entre os EUA e a China, deveríamos nos preocupar pelo estreitamento do fluxo de informações”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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