Joao Silva|The New York Times
Joao Silva|The New York Times

China investe em usina de energia a carvão no Quênia

Iniciativa revela contradição nos objetivos de Pequim em reduzir consumo de carvão mineral

Somini Sengupta, The New York Times

09 Março 2018 | 10h00

LAMU, Quênia - Do outro lado de um canal estreito nessa histórica cidade portuária, onde os baobás se distinguem entre a mata e os caranguejos rastejam pelos mangues, o Quênia pode em breve estrear sua primeira usina de energia abastecida com carvão, cortesia da China.

Os defensores do plano, entre eles importantes autoridades quenianas, dizem que a usina vai atender à crescente demanda por eletricidade do país e atrair investimentos. Os críticos temem que o ecossistema marinho será prejudicado, ameaçando o sustento das comunidades de pescadores e poluindo o ar.

A batalha em torno do projeto, que está congelado à espera do resultado de um processo, tem consequências para além de Lamu, uma cidade portuária de 700 anos no Oceano Índico que foi designada como patrimônio mundial pela Unesco.

O plano revela uma contradição na liderança climática global da China: o imenso setor do carvão do país está voltando seus olhares para o exterior em busca de novos mercados enquanto os projetos envolvendo carvão na China diminuem de número. Uma multinacional chinesa foi procurada para construir o projeto de US$ 2 bilhões e mil acres em Lamu, e um banco chinês está ajudando a financiar o projeto, que está entre as centenas de usinas de carvão que as empresas chinesas estão ajudando a construir ou financiar em todo o mundo.

Enquanto os líderes do Quênia descrevem a usina como fonte de energia barata e confiável, o país também busca se tornar uma central de energia renovável, com imensos projetos de energia solar e eólica em andamento e a promessa de reduzir as emissões de gases-estufa em 30% até 2030.

Erik Solheim, diretor do programa da ONU para o meio ambiente, com sede na capital, Nairóbi, disse que a queda no preço da energia renovável torna o projeto "muito menos viável". "Não vejo razão para o levarem adiante", disse ele.

A cidade portuária de Lamu, fundada no século 14 num arquipélago de  pequenas ilhas perto da Somália, está entre os mais antigos lugares continuamente habitados da costa africana do Oceano Índico. Durante toda a manhã, ao longo da costa da cidade velha, homens descarregam troncos do manguezal e copas de palmeira. Os pescadores esvaziam suas redes. Os carros são proibidos. Os únicos táxis são jumentos.

A indústria do turismo, antes próspera, encolheu muito por causa de uma série de ataques cometidos pelo grupo terrorista Shabab, da Somália.

A construtora da usina, um consórcio queniano chamado Amu Power, planeja começar importando carvão: só mais tarde uma mina de carvão queniana, no interior do país, passaria a funcionar.

De acordo com o grupo de monitoramento Global Coal Tracker, mais de 200 usinas de carvão estão sendo construídas ou financiadas por empresas chinesas, da Mongólia até o Zimbábue.

"Conforme a China reduziu sua dependência doméstica em relação ao carvão, o país se expandiu no exterior, aliviando o excesso de capacidade doméstica", disse Katharine Lu, do grupo de lobistas Friends of the Earth, voltado para questões ambientais.

Além do excesso de carvão, a geopolítica também é um fator nessa expansão. A iniciativa chinesa do cinturão e da estrada é uma parte central da estratégia do presidente Xi Jinping para ampliar a influência global de seu país com projetos de infraestrutura no exterior.

Em Lamu, cerca de 600 lares cujos terrenos foram adquiridos para o projeto estão à espera de compensação financeira. Abdul Abdi, um negociante local de madeira do manguezal que três anos atrás comprou 20 acres no terreno onde a usina será construída, disse que as autoridades garantiram que o projeto vai enriquecer a região, e não prejudicá-la. 

"Eles garantem que o projeto vai trazer muito dinheiro", disse. "Garantem para nós que não estão loucos".

Mas, na disputa envolvendo a usina, Abdi brigou com um antigo amigo, Walid Ahmed Ali. Ahmed Ali passou os dois anos mais recentes trabalhando com a Save Lamu, grupo que está movendo um processo para deter o projeto, dizendo às pessoas que uma usina de carvão pode estragar o ar e a água e, finalmente, seu sustento. Em comparação com o dinheiro oferecido como compensação, seus alertas a respeito do futuro pareceram vagos.

"Este é o único lugar que chamamos de lar, o único lugar onde temos parentes e famílias", disse Omar Elmawi, representante da Save Lamu. "Não há compensação para a retirada de todo mundo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.