Tingshu Wang/Reuters
Tingshu Wang/Reuters

China se prepara para outra Olimpíada em Pequim, quer você goste ou não

Com o início dos Jogos de Inverno marcado para daqui a menos de um ano, uma China poderosa e confiante está prometendo retaliação se algum país boicotar o evento por causa dos direitos humanos

Steven Lee Myers, The New York Times - Life/Style

02 de março de 2021 | 05h00

Quando Pequim sediou os Jogos Olímpicos de 2008, muitos argumentaram - ou pelo menos torceram - que a atenção internacional melhoraria os direitos humanos na China. Isso não aconteceu.

Agora, a China está em contagem regressiva para outra Olimpíada em Pequim. Desta vez, são os Jogos de Inverno, em fevereiro de 2022. E enfrenta cada vez mais pedidos de boicote devido às violações de direitos, desde a retirada de Hong Kong de suas prometidas liberdades democráticas até o encarceramento em massa de uigures muçulmanos em Xinjiang.

O mundo, no entanto, mudou desde 2008. Praticamente ninguém hoje acredita que sediar os jogos irá moderar o comportamento da China.

Naquela época, os líderes chineses pelo menos prometeram concessões às liberdades democráticas básicas para mostrar que mereciam ser anfitriões dos jogos. O atual líder, Xi Jinping, está muito mais confiante e não parece ter intenção ou se sentir coagido a fazer concessões. E a própria China não é mais uma potência capitalista emergente, mas a segunda maior economia do mundo, competindo páreo a páreo com os Estados Unidos pela influência global.

Autoridades eleitas nos EUA, Canadá e Grã-Bretanha pediram a seus países para não participar da Olimpíada, assim como dezenas de organizações de direitos humanos. Outras, como a Freedom House, disseram que mesmo que os jogos aconteçam, funcionários do governo, ícones culturais e patrocinadores devem se recusar a comparecer.

“Qualquer outro comportamento será visto como um endosso ao governo autoritário do Partido Comunista Chinês e ao desrespeito descarado aos direitos civis e humanos”, dizia uma carta pública redigida mês passado pedindo um boicote. Ela foi assinada por mais de 180 grupos de defesa em todo o mundo, muitos deles focados no Tibete, Hong Kong e os uigures.

Até agora, nenhum país declarou boicote. Os pedidos para que ele aconteça também enfrentaram resistência do Comitê Olímpico Internacional (COI), cujo estatuto apela à “alegria do esforço, o valor educacional do bom exemplo, a responsabilidade social e o respeito pelos princípios éticos fundamentais universais”.

A influência econômica da China por si só tem mais peso do que nunca, inclusive com órgãos internacionais como o COI e os grandes patrocinadores corporativos dos jogos. A China também demonstrou sua vontade de usar o comércio como uma ferramenta de coerção geopolítica, como a Austrália aprendeu com uma enxurrada de medidas punitivas tendo como alvo carvão, vinho e outras exportações.

Nem mesmo o esporte está imune. O governo suspendeu as transmissões da NBA na China por causa de um único tuíte em apoio aos protestos em Hong Kong e, em seguida, fez o mesmo com um famoso time de futebol da Premier League inglesa depois que um de seus jogadores denunciou o tratamento que a China dava aos uigures.

“O governo chinês está cada vez mais poderoso e influente agora”, disse Teng Biao, advogado que foi detido em Pequim em 2008 por criticar os preparativos do país para aqueles jogos. “Eles têm o poder de punir aqueles que criticam o regime.”

O COI, assim como os patrocinadores e emissoras, tem muito a perder se os jogos forem pouco assistidos.

“Também está claro que queremos com os Jogos Olímpicos vivenciar a paixão e a excelência do esporte e a excelência da organização chinesa”, disse o presidente do COI, Thomas Bach, à agência de notícias estatal Xinhua, após uma conversa por telefone com Xi em janeiro para discutir os últimos preparativos de Pequim.

Pequim foi escolhida como sede dos Jogos de 2022 depois que várias cidades europeias desistiram em 2015, alegando custos onerosos. A China derrotou o único outro concorrente que restou, Almaty, a principal cidade do Casaquistão, outro país autoritário. O placar entre as duas candidatas foi de 44-40.

A disposição da China de gastar o que fosse necessário para a realização dos jogos é parte do que a torna indispensável para o comitê olímpico. Teng, o advogado, que agora é professor na Hunter College em Nova York, estava entre os que se reuniram com funcionários do comitê em outubro passado para exigir mais pressão sobre a China.

“Eles não tinham nenhum plano de trazer à tona questões básicas de direitos humanos ao governo chinês”, disse ele. "E eles não vão fazer isso."

O comitê respondeu com uma declaração escrita por um porta-voz não identificado. Ele disse que o comitê “não tem mandato nem capacidade para mudar as leis ou o sistema político de um país soberano”.

A equipe do presidente Joe Biden tem sinalizado sentimentos contraditórios em relação a um boicote, embora alguns de seus assessores de campanha tenham levantado a ideia em conjunto com outros países.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, sugeriu que o boicote ainda não era uma opção. “No momento, não estamos conversando sobre mudar nossa postura ou nossos planos no que se refere às Olimpíadas de Pequim”, disse ela.

Minky Worden, que tem acompanhado a participação da China nas Olimpíadas e faz parte da Human Rights Watch há mais de duas décadas, disse que uma campanha contra os Jogos de 2022 poderia pressionar patrocinadores e visitantes. “O boicote tem muito simbolismo, mas não é a única flecha na aljava da comunidade de direitos humanos”, disse ela.

A China, por sua vez, parece destemida, até mesmo desafiadora. “Se algum país for encorajado por forças extremistas a tomar medidas concretas para boicotar os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, a China definitivamente retaliará ferozmente”, escreveu em fevereiro o Global Times, um jornal nacionalista de propriedade do Partido Comunista.

A China também está preparando outra candidatura olímpica, desta vez com as cidades de Chengdu e Chongqing como possíveis anfitriões da Olimpíada de 2032. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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