Sim Chi Yin para The New York Times
Sim Chi Yin para The New York Times

China pede ajuda de gigantes da tecnologia para exercer controle na internet

Pequim pressiona as companhias a contribuírem com seus esforços para instaurar censura online

Paul Mozur, The New York Times

11 Março 2018 | 10h00

XANGAI - A China censura há muito tempo o que o seu povo lê e fala online. Agora, ela policia o que as pessoas falam a este respeito no mundo todo.

Há anos, a China exerce o controle digital com um sistema de filtros de internet conhecido como o Grande Firewall, um sistema de segurança que permite que as autoridades limitem o que as pessoas podem ver online.

Para ampliar a censura, Pequim se aventura fora da Grande Muralha de proteção da internet e se preocupa mais com o que os seus cidadãos falam em aplicativos e serviços não chineses.

Como parte desta mudança, Pequim pressiona as companhias estrangeiras como Google e Facebook, que estão bloqueadas na China, a retirarem conteúdo. Em outros tempos, o governo pressionava os usuários da mídia social global a encorajar a autocensura. Este esforço está acelerando à medida que o presidente Xi Jinping consolida o seu poder.

Zhang Guanghong, um ativista dos direitos humanos chineses, descobriu recentemente em primeira mão a mudança do panorama. No fim do ano passado, ele quis compartilhar um artigo que criticava o presidente chinês com um grupo de amigos dentro e fora da China. Para tanto, usou o WhatsApp, um aplicativo americano de propriedade do Facebook, que praticamente ninguém utiliza na China.

Em setembro, Zhang foi preso na China e deverá ser acusado de insultos ao governo e ao Partido Comunista chinês.  A prova, segundo o seu advogado, inclui o que Zhang compartilhou no WhatsApp.

O caso de Zhang é um dos primeiros exemplos de que as autoridades chinesas usam as conversas de um aplicativo de bate-papo não chinês como evidência - e enviam uma advertência aos que usam a plataforma. “A China se vale cada vez mais do próprio peso em todo o globo”, comentou Joshua Rosenzweig, analista da Anistia Internacional.

À medida que Xi afirma o próprio poder e a primazia do poder geopolítico chinês, a China também está se sentindo mais à vontade para projetar a visão de Xi sobre o controle da internet.

No ano passado, na prisão de Lee Ming-che, ativista do movimento de defesa dos direitos humanos, a polícia chinesa usou um texto que ele havia postado no Facebook em Taiwan como prova contra ele.

Durante muito tempo, Pequim se contentou em bloquear as companhias estrangeiras de internet e em policiar as alternativas locais, mas agora passou a pressionar diretamente os indivíduos ou a exigir que as companhias cooperem com os seus esforços na adoção da censura online.

Com isto, diversas gigantes tecnológicas se encontram em uma posição complicada. No passado, estas companhias fizeram grandes esforços para obter acesso ao vasto mercado de internet da China, com mais de 700 milhões de usuários. O Facebook criou uma ferramenta de censura que não usou e lançou um aplicativo no país sem pôr o próprio nome nele.

A Apple está transferindo o armazenamento de dados para os seus clientes chineses na China e, no ano passado, retirou software que contorna os bloqueios à internet impostos pelas autoridades chinesas da sua China App Store. O Google informou recentemente que implantará um novo laboratório de inteligência artificial no país.

Quando Guo Wengui, um magnata chinês que se encontra em exílio voluntário, recorreu ao Facebook para acusar as autoridades chinesas de corrupção, o Facebook suspendeu a sua conta. Ela disse que a conta divulgou informações pessoais de outras pessoas sem o consentimento delas, infringindo a sua política.

As autoridades chinesas pediram aos serviços do Google que retirassem 2.290 itens no primeiro semestre do ano passado, segundo estatísticas da companhia; mais que o triplo das solicitações feitas no segundo semestre de 2016.

Às vezes, os cidadãos chineses também pressionam as companhias estrangeiras para que se censurem. A Daimler, a indústria automotiva alemã, pediu desculpas em fevereiro depois que a marca Mercedes-Benz postou uma citação motivacional no Instagram do Facebook que atribuiu ao Dalai Lama. O governo da China considera o líder budista tibetano um defensor da independência do Tibet, e a Mercedes-Benz foi criticada  por chineses que compartilham destes pontos de vista. Ela apagou o post, embora a China bloqueie a Instagram.

O caso de Zhang parece um dos primeiros em que um cidadão foi acusado por espalhar artigos no WhatsApp, que é criptografado e administrado por uma companhia estrangeira, e é considerado uma plataforma mais segura do que o aplicativo local de mensagens WeChat. O seu advogado, Sui Muqing, disse que ficou surpreso quando a polícia apresentou cópias impressas de posts de Zhang. Sui disse: “Nenhum de nós soube como eles conseguiram ter acesso a estes dados”.

Os especialistas afirmaram que as informações provavelmente foram obtidas por meio de alguém do grupo do WhatsApp de Zhang ou acessando diretamente o seu celular, e não invadindo o WhatsApp. Uma porta-voz do WhatsApp afirmou que a China não tinha acesso à entrada secreta das suas mensagens em código.

“Quando eu falo de tecnologia e de internet, as pessoas anseiam por elas e por um futuro que promoverá a liberalização”, disse Sui. “Mas elas negligenciam o fato de que o autoritarismo moderno também aumenta com o desenvolvimento da tecnologia, o que torna o controle mais difuso e mais profundo”. / Carolyn Zhang contribuiu para a reportagem

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