Hartwig Braun via The New York Times
Hartwig Braun via The New York Times

China quer influenciar países com spas e pistas de esqui

Iniciativa chinesa para criar laços geopolíticos tem sido usada também em projetos de entretenimento

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

17 Agosto 2018 | 15h00

HONG KONG - Na Tailândia, um cinema equipado com assentos hidráulicos dará ao público a sensação de voo. Na Austrália, uma pista de esqui interna está em construção perto das praias de Gold Coast. Na República Checa, um spa de medicina chinesa está em construção na região sul do país, produtora de vinhos.

Os três projetos fazem parte dos esforços de Pequim para criar laços geopolíticos e econômicos - e os três são desvios da missão original.

Sob o governo do presidente Xi Jinping, Pequim prometeu investir trilhões de dólares na construção de estradas, usinas de energia e portos na Ásia, África e Europa como parte de sua iniciativa Cinturão e Estrada. O programa segue a visão de imensos e importantes projetos de infraestrutura construídos com a bênção e os recursos do governo chinês, como modo de conquistar amigos e ampliar sua influência.

Mas, passados cinco anos, projetos menores estão encontrando espaço sob o guarda-chuva do Cinturão e Estrada, usando o programa para burlar as restrições ao investimento estrangeiro. Pequim foi contrária a negócios nos ramos imobiliário e de entretenimento, chegando a bloquear transações como parte de uma campanha mais ampla de combate aos gastos exuberantes de empresas chinesas no exterior.

Conforme a economia apresenta sinais de desgaste, funcionários do governo chinês se mostram mais cautelosos em relação ao programa, analisando mais de perto os acordos de financiamento e o número de projetos em andamento. Isso, porém, não esfriou os ânimos de algumas empresas.

"Há negócios precipitados ocorrendo sob a égide do programa Cinturão e Estrada porque é assim que os empreendedores indicam estar alinhados com os objetivos políticos da liderança do país", disse Arthur Kroeber, diretor administrativo da empresa de pesquisas independente Gavekal Dragonomics. "Trata-se, sem dúvida, de uma arena que interessa muito aos oportunistas", acrescentou.

Além do spa na República Checa, há planos para a construção de centros culturais chineses e parques temáticos na Hungria, Itália, Filipinas, Rússia, Sérvia e Vietnã.

A missão do programa Cinturão e Estrada também está se espalhando geograficamente. Originalmente concentrada nos países localizados ao longo da antiga rota comercial que trouxe viajantes como Marco Polo até o Oriente, o alcance oficial do programa passou a incluir África e América do Sul.

Mas a Austrália ainda não foi incluída. No entanto, isso não foi empecilho para a Songcheng Performance Development, responsável pela construção da pista de esqui interna, parte de um imenso parque de diversões e complexo de entretenimento.

"Vamos oferecer apresentações culturais no parque, como a história de como o Capitão Cook descobriu a Austrália", disse recentemente aos investidores o diretor da Songcheng, Zhang Xian.

O parque, chamado de Reino das Lendas da Austrália, parece combinar cada um dos setores atualmente sujeitos a um congelamento imposto pelo governo: Pequim está tentando coibir projetos supérfluos por parte dos conglomerados chineses. Mas o ministério da agricultura da China transformou o Reino das Lendas da Austrália numa prioridade.

Na China, a Songcheng opera 30 parques de diversões, além de produções mostrando as culturas de diferentes minorias étnicas chinesas.

Os defensores dos projetos - há muitos deles na China - afirmam que cinemas e parques de diversões servem para avançar os objetivos diplomáticos da China tanto quanto os projetos de infraestrutura.

"Um dos objetivos do intercâmbio cultural sob o programa Cinturão e Estrada é ampliar nosso poder brando", disse Chen Shaofeng, vice-diretor do Instituto de Indústrias Culturais da Universidade de Pequim. "É algo que também proporciona apoio estratégico para a cooperação econômica".

São metas idealistas para aquilo que os críticos descrevem apenas como carta branca para gastar fortunas no exterior.

A Betop Entertainment, que está construindo um cinema na Tailândia, conta com o apoio do governo ao projeto.

Este será o primeiro empreendimento da empresa fora da China, onde ela é dona dos chamados cinemas voadores (os espectadores são presos a assentos hidráulicos que sacodem enquanto imagens são projetadas acima) em 27 cidades, segundo Li Dan, funcionária da empresa.

"É algo que se enquadra na proposta", destacou Li. “É melhor seguir a mesma direção do governo e de suas políticas". / Hana de Goeij contribuiu com a reportagem.

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