Gilles Sabrie para The New York Times
Gilles Sabrie para The New York Times

China compra o silêncio do mundo sobre os uigures

Pequim está usando pressão econômica e diplomática para conter qualquer clamor, enquanto os governos relutam em arriscar laços financeiros e acordos comerciais

Jane Perlez, The New York Times

04 de outubro de 2019 | 05h00

PEQUIM - Quando o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, visitou Pequim, há alguns meses, aplaudiu a iniciativa de uma nova Rota da Seda unindo a Ásia à Europa. Ele recebeu dinheiro chinês para a economia do seu combalido país, e homenageou a soberania da China.

Mas Erdogan, que promoveu os valores islâmicos em sua nação predominantemente muçulmana, calou em grande parte sobre a prisão de mais de um milhão de muçulmanos turcos em Xianjiang, na região ocidental da China, e a assimilação forçada de outros milhões. Foi uma reviravolta em relação a dez anos antes, quando ele afirmou que os uigures daquela parte do mudo estavam sendo submetidos , “em palavras simples, a um verdadeiro genocídio” nas mãos do governo chinês.

O mundo não fala de Xinjiang, onde a China construiu uma vasta rede de centros de detenção e há uns dois anos exerce uma vigilância sistemática em uma operação do Estado destinada a converter os uigures em leais defensores seculares do Partido Comunista. Embora os diplomatas testemunhem os problemas em primeira mão e os condenem em particular, relutam ir a público, incapazes de obter amplo apoio ou não querendo pôr em risco os vínculos financeiros com a China.

Graças ao seu poderio diplomático e econômico, a China conseguiu abafar as críticas. Autoridades chinesas convenceram alguns países a apoiar publicamente Pequim nesta questão, principalmente países muçulmanos da África, Ásia e Oriente Médio. Eles jogam com as divergências existentes no Ocidente em relação à China.

E travam uma agressiva campanha a fim de  impedir qualquer discussão a respeito de Xinjiang na ONU. Em um evento especial às vésperas da recente Assembleia Geral sobre a proteção da liberdade religiosa, o presidente Donald Trump, o anfitrião, não mencionou os uigures. De sua parte, a China afirma que os seus centros de detenção criados pelo Estado, cercados por altos muros, são fundamentais para a sua luta contra o extremismo islâmico. Pequim os definiu como internatos, explicando que os detentos estão ali voluntariamente.

“Não houve um único caso de terrorismo violento nos últimos três anos”, disse Wang Yi, o ministro do exterior chinês, no evento na ONU. “Os centros de educação e treinamento são escolas que ajudam as pessoas a se libertarem do terrorismo e do extremismo e a adquirir capacitações úteis”.

Alguns discutem cautelosamente a questão da China por razões econômicas. Quando a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda  Ardern, visitou Pequim pouco depois do massacre de 51 muçulmanos em Christchurch, ela disse que discutiu em particular a respeito da situação de Xingjiang com o presidente chinês Xi Jinping. 

A Nova Zelândia vende grande parte dos seus principais produtos de exportação, leite, carne e vinho, para a China. No ano passado, a China ajudou a Turquia a obter um empréstimo de US$ 3,6 bilhões para energia e transportes. Desde então, a economia turca fraquejou ainda mais.

“Muitos governos procuram fingir que não veem e fazem ‘mea culpa’ na questão de Xinjiang”, disse Daniel R. Russel, que foi assistente do secretário de Estado de Obama. E acrescentou: “Poucos países estão dispostos a ser alvo de retaliações chinesas”. Quando os países criticam a China, o fazem em grupo, como uma maneira de diluir e minimizar um possível castigo.

Em Genebra, neste verão, cerca de vinte países na maioria ocidentais, e o Japão, se uniram no Conselho dos Direitos Humanos da ONU para pedir à China o fechamento dos centros. Nenhum país se dispôs a liderar o grupo. Os signatários da declaração basearam-se em um procedimento que permitia que o documento circulasse sem um líder.

A China elaborou rapidamente uma lista de 37 nações amigas que elogiaram a sua “contribuição à causa internacional dos direitos humanos”. A China oferece a própria imagem de Xinjiang ao mundo diplomático. Nos últimos nove meses, Pequim convidou um grupo seleto de visitantes para viagens circunscritas aos centros de detenção com o objetivo de obter uma publicidade positiva.

Em geral, os visitantes são escolhidos a dedo, e incluem jornalistas de países amigos. Então, frequentemente, eles são citados na mídia oficial chinesa como autores de comentários lisonjeiros. “Eu vi sorrisos sinceros nos rostos dos estagiários que entrevistei”, afirmou Abdul Aziz Raddad A. Arabie do jornal saudita Okaz, no China Daily, órgão do Partido Comunista.

Em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, no ano passado, convocado para discutir as violações dos direitos humanos na Síria, a China interferiu. Sua preocupação era que a discussão se estendesse a Xinjiang. Quando os diplomatas estavam prestes a se encontrar, a Costa do Marfim retirou o seu apoio a discussão sobre a Síria. Não havendo mais quorum para a sessão, ela foi cancelada. O embaixador da Costa do Marfim explicou que o seu presidente recebera um telefonema de Pequim instruindo-o a fazer com que a sessão não acontecesse.

“Se você não quer discutir a questão da Síria após todos estes sete anos de brutalidade, evidentemente, pode bloquear uma discussão sobre Xinjiang”, afirmou Zeid Ra’ad al-Hussein, um dos membros do conselho de direitos humanos na ONU. Edward Wong contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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