Yuyang Liu para The New York Times
Yuyang Liu para The New York Times

China tem robôs garçons incapazes de servir

O país ainda tropeça na tentativa de ultrapassar EUA no campo da tecnologia

Paul Mozur, The New York Times

27 Agosto 2018 | 00h00

XANGAI - Fones de ouvido telepáticos que não conseguem ler os pensamentos. O detector de incêndio que foi declarado risco de segurança. Um garçom que nem sequer consegue servir a comida. A China está pronta para o futuro, embora este futuro ainda não tenha chegado.

A China se tornou uma força tecnológica global em poucos anos. Agora, centenas de milhões de pessoas no país usam celulares para fazer compras, pagar as contas e investir seu dinheiro. Isso levou muitos chineses a adotar a tecnologia, independentemente de suas aplicações questionáveis. A inteligência artificial corrige a lição de casa. O reconhecimento facial ajuda na entrega de todo o tipo de produto, seja papel higiênico ou um pedido de frango frito. A China está concorrendo consigo mesma pelo recorde de robôs dançantes.

Alguns alertam que tamanha exuberância é um dos sinais de uma bolha de capital de investimento, que pode estar perto de estourar. Para esses críticos, espetáculos como robôs dançantes e dispositivos telepáticos ineficazes servem como demonstração não do poderio tecnológico da China, e sim de sua falta de progresso em outras áreas.

Essas deficiências ficaram claras em abril, quando os Estados Unidos proibiram empresas americanas de vender chips e outros produtos de tecnologia à ZTE, empresa chinesa de telecomunicações. A ZTE foi flagrada em violação das sanções americanas com a venda de produtos ao Irã e Coreia do Norte. A proibição praticamente paralisou a empresa.

Os chineses não devem perder o contato com a realidade, alertou Liu Yadong, editor-chefe da publicação estatal Diário da Ciência e Tecnologia. Em discurso recente, ele disse que a China ainda não tinha superado os EUA em termos de tecnologia, acrescentando que acreditar no contrário é correr o risco de "enganar os líderes, enganar o público e enganar a si mesmo".

Mas a exuberância pode ser positiva para a China, conforme os produtos úteis encontram seu espaço e os ruins são abandonados com a maturação desse período de prosperidade.

A China tem agora o maior grupo de usuários da internet e algumas das empresas online mais valiosas do mundo. Em 2017, startups chinesas receberam quase a metade dos dólares captados em todo o mundo para projetos de inteligência artificial, de acordo com a empresa de pesquisas CB Insights. Já em 2020, a China deve responder por mais de 30% dos gastos mundiais em robótica, segundo a empresa de pesquisas em tecnologia IDC.

Muitos na China acreditam que a supremacia do país em relação aos EUA na área tecnológica é inevitável.

"Os chineses se mostram muito mais dispostos a tentar algo diferente simplesmente porque o resultado seria bacana", disse Andy Tian, diretor-executivo do Asia Innovations Group, com sede em Pequim, que desenvolve aplicativos para celular. "Pode parecer superficial, e é superficial. Mas não deixa de ser uma força impulsionando o progresso".

O Xerife Robótico E-Patrol poderia se enquadrar nessa definição. O modelo está entre os muitos robôs de segurança presentes nas estações de trem e aeroportos da China. O Xerife Robótico E-Patrol patrulha a estação de trem-bala de Zhengzhou, incumbido de usar o reconhecimento facial para identificar e seguir pessoas suspeitas, além de medir a qualidade do ar e detectar incêndios.

Durante uma visita à estação no inverno, não foi possível localizar o robô. Segundo autoridades, a unidade fracassou em detectar um foco de incêndio. Além disso, o robô era seguido por tantos fãs em busca de selfies a ponto de se tornar um risco à segurança.

A China costuma adotar uma abordagem centralizadora em relação à tecnologia, com os governos locais se esforçando para cumprir planos elaborados nos escalões superiores. Traquitanas de aparência futurista podem ser os melhores símbolos do progresso.

Robôs dançantes se tornaram parte do repertório das apresentações dos setores público e privado no ano passado. "Estavam por toda parte", disse David Li, fundador da Shenzhen Open Innovation Lab, uma plataforma incubadora de startups em Shenzhen que recebe apoio do governo. Ele calculou ter visto dez espetáculos de robôs dançantes numa única semana.

Restaurantes com robôs começaram a surgir em toda a China. Um deles, em Xangai, restaurante Robot Magic, mantém uma atmosfera futurista digna de um minigolfe. Dentro, um robô com olhos de coração carregava suas baterias numa caverna falsa completa, com estalagmites prateadas e estrelas falsas que reluziam no teto.

Os robôs levam a comida até as mesas, mas não conseguem depositá-la na frente dos clientes. Garçons de verdade aguardam as fotos para, então, servir a comida à moda antiga.

Ao longo de um almoço de uma hora, um garçom teve de usar o maçarico três vezes para eliminar restos de comida e lixo acumulados nas engrenagens de um robô. Ainda assim, os fregueses pareciam impressionados.

"Acabo de voltar dos EUA, e não vi muitas novidades por lá", disse a aposentada Xie Aijuan. "Acho que os americanos não têm restaurantes robóticos".

"A China está ultrapassando os EUA", concordou, Zhuang Jiazheng, que jantava com ela. "É apenas questão de tempo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.