Gilles Sabrié / The New York Times
Gilles Sabrié / The New York Times

Minoria muçulmana, uigures sofrem com repressão, mas resistem

Faz três anos que o povo enfrenta ampla campanha que busca transformá-los em seguidores do Partido Comunista, enfraquecendo seu compromisso com o Islã

Chris Buckley e Steven Lee Myers, The New York Times

25 de janeiro de 2020 | 06h00

IARCANDA, CHINA — As tortuosas e superlotadas ruas da cidade velha de Iarcanda, antigo entreposto da Rota da Seda, preservam estilos de vida que remontam a séculos atrás. Em um dia recente, a fumaça subia das grelhas que assavam carneiros. Pancadas metálicas ecoavam do ateliê do ferreiro. Sons de um dutar, instrumento semelhante ao alaúde, flutuavam saídos de uma loja de música. Em uma casa de chá, velhos usando chapéus muçulmanos conversavam em voz baixa.

Situada na beira do Deserto de Taklamakan, Iarcanda ainda é um berço cultural para os uigures, minoria muçulmana da região chinesa de Xinjiang. Mas o modo de vida deles se encontra sob intensa pressão. Faz três anos que os uigures enfrentam uma ampla campanha que busca transformá-los em seguidores obedientes do Partido Comunista, enfraquecendo seu compromisso com o Islã e transferindo-os das fazendas para as fábricas. Cidades e vilarejos são cercados por postos de controle da polícia que usam tecnologia de reconhecimento facial para registrar as idas e vindas das pessoas.

O número de uigures enviados a campos de doutrinamento desde 2017 ultrapassa a marca de um milhão. Iarcanda foi dizimada por tais detenções. Em 2018, esta cidade de 200 mil habitantes foi fechada para jornalistas estrangeiros. Mas, desde o ano passado, as autoridades de Xinjiang relaxaram o controle a ponto de permitir nossa entrada.

Nossa visita revelou uma cidade marcada por levantes recentes. Escavadeiras avançam contra casas da cidade velha, denunciadas como “favelas". Mas os uigures da cidade também pareciam determinados a resistir. Atêm-se aos costumes derivados de sua história de agricultores e mercadores muçulmanos que viviam na beira dos desertos.

Uma rápida corrida de táxi nos levou até o centro antigo de Iarcanda, onde as lojas e restaurantes ganhavam vida. Éramos constantemente observados por policiais à paisana, e limitamos nossas conversas com os moradores a breves trocas de trivialidades, por medo de causar-lhes problemas posteriormente.

Iarcanda ainda oferece lampejos do esplendor do seu passado. A rua principal da antiga área comercial é repleta de sobrados desgastados e rachados, habitados por lojistas. Seus balaústres de madeira são decorados com rodopiantes padrões florais, lembrando a história de Iarcanda enquanto entreposto de rotas comerciais que cruzavam a China e a Ásia Central. Mulheres usando vestido de cores fortes entravam nas lojas.

Lugares que visitamos durante a repressão em 2017 e 2018 pareciam mais movimentados e cheios agora, indicando um relaxamento das restrições. Alguns indícios de mudanças em Iarcanda são sutis. Em um parque, seis barbeiros afiavam as navalhas, raspando a barba dos fregueses.

A demanda por barbeiros era muito menor há pouco tempo. A partir dos anos 1990, um ressurgimento islâmico foi observado no sul de Xinjiang. Mais jovens passaram a usar barba e a cobrir a cabeça como determina sua fé, enquanto mais mulheres passaram a usar os pesados véus e vestidos longos conhecidos no Oriente Médio.

O governo culpou este ressurgimento religioso pela crescente resistência e violência étnicas, incluindo um enfrentamento ocorrido em Iarcanda em 2014, quando uigures armados com machadinhas e facões atacaram um prédio do governo e delegacia de polícia, deixando 37 mortos, de acordo com relatórios do governo.

Agora, os símbolos da fé islâmica praticamente desapareceram de Iarcanda. A maioria das mulheres usa véus discretos, quando não desistiram de vesti-los; apenas alguns idosos mantiveram a barba. As mesquitas pareciam fechadas ou praticamente vazias, mesmo no horário das orações. Quando paramos na frente de uma mesquita, um homem nos afastou. “Ame o partido, ame o país", dizia a faixa pendurada acima da entrada. Após a recente repressão de Pequim contra os muçulmanos em Iarcanda, a maioria dos uigures passou a se barbear. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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