Jason Lee/Reuters
Jason Lee/Reuters

Chineses são forçados a competir em um aplicativo que promove o presidente Xi

Mais de 100 milhões de usuários são beneficiados ou prejudicados por dominarem ou não o noticiário sobre Xi Jinping

Javier C. Hernández, The New York Times

10 de abril de 2019 | 06h00

HANGSHA, CHINA - Em uma loja de equipamentos de pesca em uma rua movimentada  da cidade, o proprietário, sentado atrás do balcão, martela furiosamente um smartphone na tentativa de melhorar sua pontuação em um aplicativo que não tem nada a ver com varas de pesca, carretéis e iscas. Jiang Shuiqui, um veterano do exército de 35 anos, tem uma obsessão diferente: ganhar pontos no Estudo da Grande Nação, um novo aplicativo que promove o presidente Xi Jinping e o Partido Comunista que está no governo - uma espécie equivalente de alta tecnologia do Livrinho Vermelho de Mao.

Dezenas de milhões de trabalhadores, estudantes e funcionários públicos chineses - frequentemente por pressão do governo - usam o aplicativo, que premia seus mais de 100 milhões de usuários por dominarem o noticiário sobre Xi. Assistir a um vídeo sobre a sua visita à França, por exemplo, é um ponto ganho. Ter uma pontuação perfeita em um teste sobre a sua política econômica, são 10 pontos ganhos.

Embora muitas pessoas utilizem o aplicativo como uma forma de patriotismo, outras o consideram mais uma obrigação imposta por funcionários e mais um sinal do crescente culto da personalidade em torno de Xi. “Ele está usando a mídia de notícias com o objetivo de fortalecer a lealdade para com ele”, observou Wu Qiang, analista político em Pequim. Ele comparou o Estudo da Grande Nação ao livrinho  das citações de Mao, que circulou em todo o país na época da Revolução Cultural. A propaganda está em toda parte na China, mas os especialistas afirmam que o Estudo da Grande Nação é diferente porque o governo obriga as pessoas a usá-lo e pune os que trapaceiam ou não se aplicam devidamente.

As escolas humilham os estudantes que só conseguem uma pontuação baixa no aplicativo. As repartições do governo realizam sessões de estudo e obrigam os trabalhadores atrasados a escrever relatórios criticando a si mesmos. As empresas privadas mantêm um ranking dos funcionários com base no uso que eles fazem do aplicativo e suspendem o pagamento dos que recebem notas baixas.

O Estudo da Grande Nação está sendo implementado em um momento em que Xi, que subiu ao poder em 2012, lidera  uma repressão mais ampla da liberdade de expressão na China, prendendo dezenas de ativistas, advogados e intelectuais, e impõe novas restrições à mídia.

David Bandurski, codiretor do China Media Project, disse que o aplicativo foi uma maneira que Xi encontrou de garantir que as famílias chinesas participassem da vida do partido, enquanto muitos  consideram a propaganda pomposa e irrelevante. “A lealdade ao partido”, disse Bandurski, “significa lealdade a Xi Jinping”.

Aplicativo

O aplicativo apresenta uma série de televisão intitulada “A Era Xi”, e as citações de Xi sobre temas como a construção de um exército forte e a realização do “sonho chinês” de prosperidade e força. Também envia notificações automáticas destacando “sentenças de ouro” dos mais recentes discursos do presidente. “Não se pode desviar a atenção deste objetivo”, afirmou HaiqingYu, professor de mídia chinesa na Universidade RMIT da Austrália. “É uma espécie de vigilância digital. Ele leva a ditadura digital a um novo patamar”.

Não se sabe ao certo até que ponto o governo controla os passos dos usuários do Estudo da Grande Nação, mas o aplicativo exige que as pessoas forneçam um número de celular para se registrarem  e um número de identificação nacional para acessar videoconferências e funções de bate-papo.

Com tantas pressões para a utilização do aplicativo, floresceu toda uma indústria de trapaças envolvendo pelo menos uma dezena de produtos. Um homem que listou sua informação de contato em um anúncio online para software de conversação disse em uma entrevista que muitos dos seus mais de mil clientes consideram o aplicativo mais uma obrigação onerosa.

O governo tratou imediatamente de processar quem usa tais trapaças e de impor um limite às críticas ao aplicativo. A polícia da província de Jiangxi, no sudeste do país, prendeu recentemente um homem que vendia software falso por cerca de US$ 13, afirmando que ele exercia um negócio ilegal.

A mídia de notícias do Estado transmite continuamente avaliações do aplicativo, incluindo histórias  sobre diligentes funcionários de hospitais e professores de jardim da infância que abrem o Estudo da Grande Nação assim que acordam, antes mesmo de tomar água ou ir ao banheiro. Alguns membros do partido sugeriram que o aplicativo pode ser usado como ferramenta de encontros para avaliar potenciais parceir(“Se  você vê uma pessoa no metrô usando o aplicativo”, diz um desenho, “deveria casar com ela”).

Em Changsha, o noticiário local elogiou Jiang, o proprietário da loja de equipamentos de pesca, por suas notas altas. Segundo Jiang, foi o treinamento militar que o inspirou a dedicar-se totalmente ao Estudo da Grande Nação. Graças ao aplicativo, afirmou, ele se tornou um patriota ainda mais fervoroso. “O presidente Xi sonha com um grande renascimento”, disse. “Quando os jovens são fortes, a nação é forte”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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