Mark Schiefelbein/Associated Press
Mark Schiefelbein/Associated Press

Chineses temem a ameaça de inflação

Os preços da carne suína e dos legumes subiram, assim como dos aluguéis

Keith Bradsher, The New York Times

17 Setembro 2018 | 10h00

PEQUIM - A carne suína subiu. Os legumes também. A gasolina aumentou. Os preços estão em alta na China - e isto poderá comprometer os esforços do governo de Pequim, que procura amparar a economia lenta e fazer frente à guerra comercial deflagrada pelo presidente Donald J. Trump.

As autoridades chinesas informaram, no dia 10 de setembro, que um índice dos preços ao consumidor subiu em agosto pelo terceiro mês consecutivo. Os aumentos não são exagerados, e os economistas  chineses destacam uma série de fatores temporários que contribuíram para a sua elevação, como as inundações que danificaram as colheitas e uma epidemia de gripe suína que levou os criadores a abater os animais.

Entretanto, os investidores e o público chinês estão temerosos. Angus Tong, morador de Pequim de 37 anos, disse que seu senhorio quer praticamente dobrar o aluguel de US$ 1.200 mensais do apartamento onde reside com a família. O aluguel já absorve um terço de sua renda e de sua esposa; e, ao mesmo tempo, os gastos da família com alimentação também subiram. “Procuramos preparar todas as refeições em casa”, explicou ele, na tentativa de economizar. “Acho que a maioria das pessoas de renda média sente a mesma pressão da elevação dos custos”.

O aumento dos preços poderá causar problemas para o presidente Xi Jinping. Significará que a liderança da China terá de ser cuidadosa na escolha de estratégias para impulsionar o crescimento desacelerado, a fim de que seus esforços não contribuam para uma maior elevação dos preços. A guerra comercial com os Estados Unidos também poderá provocar uma subida dos preços, dado que a elevação das tarifas aumenta o custo dos bens importados.

Por enquanto, os economistas chineses geralmente afirmam que não há tanto motivo de alarme. “Desastres como a gripe suína e as inundações não têm consequências muito grandes na China como um todo, e não representam uma reviravolta da tendência”, afirmou Li Xuesong, vice-diretor da Academia Nacional de Estratégias Econômicas de Pequim.

A inflação constitui uma importante questão política e econômica na China, uma consequência de uma economia muito forte, bem como dos episódios anteriores de empréstimos descontrolados dos bancos estatais. A inflação contribuiu para os protestos de 1989 na Praça Tienanmen, quando centenas de pessoas foram mortas.

Mas durante quase dez anos, a inflação não preocupou significativamente. Anos de pesados investimentos deixaram o país com excesso de capacidade em praticamente todos os setores da economia, da mineração de carvão à produção de aço e à construção naval. Isto faz com que as companhias que fabricam estes produtos tenham dificuldade para elevar os preços. Mas tudo isto poderá chegar ao fim porque a China procura reduzir o excesso de capacidade.

O país também investiu consideravelmente na educação, de modo que a produtividade da mão de obra aumentou rapidamente assim como os seus salários. Consequentemente, os custos do trabalho mudaram muito pouco.

Alguns dos fatores por trás dos recentes aumentos dos preços são aparentemente temporários. Os preços no atacado da carne suína, o componente principal da dieta chinesa, cresceram 17% desde meados de julho, depois de um surto de gripe suína. Os dos legumes aumentaram 21% no mesmo período por causa de um tufão e de inundações que danificaram as colheitas.

A Goldman Sachs afirma que, como grande parte do aumento dos preços da carne suína e dos legumes começou a ser sentida no final de agosto, estes aumentos aparecerão apenas parcialmente nos dados referentes àquela data, e contribuirão para elevar a inflação em setembro.

Os aumentos dos outros preços poderão demorar ainda mais. Os preços mundiais do petróleo subiram rapidamente, e a China é a maior importadora do mundo. Este ano, a moeda chinesa perdeu valor em relação ao dólar, e isto aumenta ainda mais o preço do petróleo para os consumidores chineses porque os contratos de petróleo são fixados em dólares.

Os custos da habitação por sua vez subiram, no que se refere às casas novas e aos alugueis. Estes aumentaram em média 17% em julho em relação ao ano anterior em 50 grandes cidades do país.

O contrapeso para um aumento maior dos preços é o fato de que a economia chinesa está reduzindo o seu ritmo. Apesar do aumento dos gastos do governo com infraestrutura, dentro em breve entrará em vigor um corte dos impostos, e um maior estímulo monetário, que poderá permanecer. Uma elevação generalizada dos preços é menos provável, porque a economia está fraca, disse Brad Setser, economista do Conselho de Relações Exteriores.

Se os preços subirem ainda mais, talvez os chineses tenham de pôr um freio em seus governos locais, que demonstram um enorme apetite pelos empréstimos de dinheiro para a construção de mais estradas e novos parques industriais.

“Frear tudo isto será uma maneira óbvia de fazer frente às pressões inflacionárias”, segundo Setser./ Ailin Tang, Elsie Chen e Karoline Kam contribuíram para a pesquisa.

Mais conteúdo sobre:
China [Ásia] inflação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.