Laura Boushnak para The New York Times
Laura Boushnak para The New York Times

Chipre, a nova rota de refugiados que leva à Europa

A pequena ilha agora abriga o maior número de refugiados per capita na União Europeia

Matina Stevis-Gridneff, The New York Times

20 de fevereiro de 2020 | 06h00

KOFINOU, CHIPRE - Segurando firme seu visto de estudante, Clinton Yebga entrou no avião da Turkish Airlines em Camarões, seu país natal, trocou de avião em Istambul e pousou sem problemas no norte de Chipre. Mas em vez de ir diretamente para a sua universidade, no norte da ilha controlado pela Turquia, ele se dirigiu para a chamada linha verde - uma faixa intocada há 40 anos que divide a ilha - e ingressou na República de Chipre, que faz parte da União Europeia.

Enquanto aguarda uma decisão a respeito do seu pedido de asilo, ele vive no campo de refugiados de Kofinu, onde sírios, palestinos e vários compatriotas de Camarões são seus vizinhos. Yebga e os outros fazem parte do grupo de mais de 11,2 mil pessoas que no ano passado descobriram uma rota tortuosa para entrar na União Europeia. Por causa disso, a pequena ilha se tornou o lugar onde se encontra o maior número per capita de pessoas em busca de asilo de toda a Europa.

No ápice da crise da migração em 2015, o bloco fez um acordo com a Turquia para impedir que estes migrantes chegassem à Grécia. Desde então, o número de fugitivos que tentam cruzar o Mar Egeu é muito menor. Mas esta solução se revelou  particularmente irritante.

“A maneira mais simples é considerar o norte de Chipre como a maior sala de espera de um aeroporto para pessoas em trânsito do mundo”, disse James Ker-Lindsay, um pesquisador sênior da London School of  Economics. “Você chega ao território da República de Chipre, mas só estará oficialmente na República de Chipre depois de passar pelo controle de fronteira da linha verde - que não é propriamente uma fronteira”, explicou.

Muitas outras pessoas estão fazendo isto, e Chipre, que tem uma população de 850 mil habitantes, se defronta com uma crise da imigração que o restante da União Europeia já deixou para trás. Em geral, os imigrantes chegam por terra vindos do norte, dizem as autoridades.

Yegba contou que deixou o seu país porque, sendo jornalista, começou a ser perseguido em plena guerra civil. Depois que sua mãe foi espancada por se recusar a dizer à polícia onde o filho estava, ele disse que entendeu que era chegada a hora de ir embora. Gastou mil euros (cerca de US$ 1,1 mil) na compra da passagem da Turkish Airlines, e mais mil euros para se matricular na universidade no norte de Chipre.

Em novembro, ele partiu rumo ao Chipre. Em poucos dias, estava na União Europeia, instalado em um campo de refugiados feito com contêineres e um pequeno playground nas colinas próximas da capital, Nicósia, onde apresentou o seu pedido de asilo. “Eu não tinha a menor ideia da divisão de Chipre”, ele disse. Em 1974, um golpe derrubou o governo cipriota ao qual seguiu uma tentativa de unir a ilha à Grécia, mas então a Turquia enviou os seus militares. Quando os combates cessaram, a ilha estava dividida. Hoje, a linha verde separa o sul etnicamente grego do norte turco.

Pelo fato de o norte ser considerado território ocupado da República de Chipre, as autoridades de Nicósia não reconhecem nem se comunicam com a sua administração. E a Turquia não reconhece o governo da República de Chipre em Nicósi, que no entanto é reconhecido internacionalmente, o que significa que o acordo entre o bloco e a Turquia na questão dos migrantes também divide Chipre.

Muitos sírios, como Mustafá Alagha, acabaram ficando sem saída no norte. Arquiteto formado, de uma família de profissionais, ele fugiu de Aleppo em 2012 pulando entre a Síria e o Kuwait. Formou-se em uma universidade do norte de Chipre, e concluiu o mestrado. Por um tempo, ele se considerou feliz.

Então o seu passaporte sírio expirou, e ele não tinha como renová-lo, senão procurando um consulado sírio. Mas isto significaria entregar-se a um governo que o obrigaria a alistar-se no Exército. Pediu três vezes um visto para ir à Turquia, e cada vez lhe foi recusado. Se ele fosse para a linha verde e pedisse asilo à República de Chipre, ficaria igualmente sem saída, à espera de uma decisão que levaria anos a fio, sem poder trabalhar como arquiteto.

“Significaria voltar à estaca zero”, ele disse. “Estou com 32 anos - acho que não tenho condições de começar do nada”. Agora, ele tem um emprego e um apartamento, mas, mesmo assim, não tem uma solução. “Esta não é a minha casa”, afirmou, “e nunca será”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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