Julien Mignot / The New York Times
Julien Mignot / The New York Times

Christo morreu, mas será que veremos mais obras dele?

O artista, que faleceu em maio, planejava "embrulhar" o Arco do Triunfo. O projeto está atrasado, mas previsto para o ano que vem

Farah Nayeri, The New York Times - Life/Style

05 de agosto de 2020 | 05h00

PARIS – Em setembro de 2021, o Arco do Triunfo – o enorme monumento que fica em uma das pontas da Avenue des Champs-Élysées, em Paris – será "embrulhado" em tecido branco como parte de uma instalação temporária idealizada por Christo, o artista de origem búlgara. Christo morreu em 31 de março, duas semanas antes de completar 85 anos, mas antes acertou todos os detalhes do projeto do Arco do Triunfo.

Ele também esteve envolvido na realização de uma exposição que acaba de ser inaugurada no Centro Pompidou, em Paris, que fica em cartaz até o dia 19 de outubro, dedicada aos anos em que ele viveu e trabalhou na capital francesa: seus primeiros passos como artista, o encontro com a mulher que se tornaria sua esposa e colaboradora, Jeanne-Claude Denat, e o momento em que embalou a Pont Neuf, em 1985.

A abertura da exposição estava programada para o dia 18 de março, mas foi adiada quando o coronavírus avançou na França. Christo não viveu para vê-la. O "embrulho" do Arco do Triunfo não é a única obra póstuma de Christo em fase de planejamento. Seus colaboradores em Nova York – liderados por seu sobrinho Vladimir Yavachev e pelo sobrinho de Jeanne-Claude, Jonathan Henery – desejam realizar mais uma das ambições do artista: uma pirâmide trapezoidal (ou mastaba) feita de barris de petróleo e instalada permanentemente no deserto de Abu Dhabi.

Arrecadar os US$ 350 milhões necessários para a obra não será fácil. A equipe de Christo "é extraordinariamente competente, e eles conhecem todas as nuances do projeto do Arco do Triunfo, já que participaram de tudo. Eles sabem exatamente o que Christo queria fazer, e Christo queria que esse projeto saísse do papel mesmo que ele não estivesse mais por aqui", disse Jonathan Fineberg, professor da Universidade das Artes, na Filadélfia, e autor de artigos sobre Christo e Jeanne-Claude.

A ideia do Arco do Triunfo surgiu há três anos, quando o Centro Pompidou perguntou a Christo se o artista poderia criar uma instalação para coincidir com a exposição. Christo disse que a única coisa que gostaria de fazer em Paris era realizar seu sonho de embrulhar o Arco do Triunfo.

O Pompidou o ajudou a conseguir as permissões necessárias, incluindo a autorização do presidente Emmanuel Macron. Embrulhar o Arco – que é mais alto que o Reichstag, em Berlim, embalado por Christo em 1995 – exigirá 25 mil metros quadrados de tecido de polipropileno coberto com alumínio pulverizado, para dar um brilho azul prateado. O tecido será amarrado com cerca de três quilômetros de corda vermelha, em uma sutil referência às cores da bandeira da França.

A obra toda custará entre 12 e 14 milhões de euros, de acordo com Yavachev. Este acrescentou que o local apresenta alguns desafios específicos, e explicou que os técnicos terão de construir uma plataforma elevada, para que a cerimônia em homenagem ao Soldado Desconhecido seja realizada durante a instalação. Depois que os especialistas em pássaros notificaram Christo de que uma espécie de falcão faz ninho no Arco do Triunfo toda primavera, o projeto foi adiado de abril para setembro deste ano, com o objetivo de não atrapalhar os pássaros.

Depois, foi adiado por mais 12 meses, devido à epidemia do coronavírus, e agora está programado para ficar em cartaz de 18 de setembro a 3 de outubro de 2021. Yavachev disse que a morte do tio o deixou "profundamente entristecido". Mas seu dia a dia de trabalho não mudou muito – a não ser por um detalhe.

"Já não posso mais fazer aquela ligação quando quero conversar um pouco com ele. Às vezes percebo que estou pegando o telefone para ligar e me dou conta de que não posso", contou. A exposição no Pompidou conta com obras antigas de Christo que nunca foram vistas – pinturas guardadas por décadas no porão de uma propriedade na França que pertencia ao pai de Jeanne-Claude – e apresenta pistas interessantes para sua vida e obra.

Quando o jovem formado em artes fugiu do bloco soviético e chegou à capital francesa em 1958, ele se mudou para um quarto de empregada com vista para o Arco do Triunfo. "Era o monumento a conquistar: um importante símbolo para o jovem artista que acabava de chegar a Paris", explicou Sophie Duplaix, curadora da exposição no Pompidou. Ali, Christo criou suas primeiras esculturas embrulhadas.

Ele envolveu latas de tinta, tambores de óleo, um cavalo de brinquedo e um carrinho de supermercado em materiais como tecido, plástico e oleado. Também embrulhou furtivamente monumentos públicos, que foram filmados para a posteridade. Então, começou a ampliar suas ambições, e um dos edifícios que mais desejava embalar era o Arco do Triunfo. Uma fotomontagem de 1962-63, exibida na exposição, mostra uma vista do para-brisa de um carro em direção ao arco à noite.

No lugar do monumento, está a versão aumentada de uma das esculturas de Christo (que também estará na exposição): um objeto retangular firmemente envolto em tecido e corda. Como Duplaix explicou, esses objetos iniciais, como os monumentos que viriam mais tarde, nunca foram embalados aleatoriamente. Cada volta e cada dobra do tecido, a posição de cada corda, tudo foi composto cuidadosamente, como se fossem linhas de um esboço ou uma pintura.

"Ele desenhava com tecido e corda", disse a curadora. Desde o início dos anos 1970, quando se mudaram para Nova York, Christo e Jeanne-Claude realizaram uma série de projetos aparentemente impossíveis: a instalação de 40 quilômetros de cerca em partes da Califórnia; o embrulho da Pont Neuf e do Reichstag; o cercamento de 13 ilhas na Baía Biscayne, na Flórida, com tecido flutuante rosa. Foram necessários anos de negociação com diversas autoridades e comunidades locais para realizar cada projeto.

Os projetos eram financiados por meio da venda dos esboços, das colagens e das maquetes feitos por Christo durante a preparação. O galerista de Christo em Londres, David Juda, diretor da galeria Annely Juda Fine Art, contou que o artista nunca se preocupou com a longevidade de suas obras. Em 1971, um importante museu londrino decidiu comprar uma colagem de Christo e enviou um conservador à galeria para examiná-la.

"O conservador disse: 'O que vamos fazer com os grampos? Eles vão enferrujar a tela toda. Isso é terrível para a conservação", relembrou Juda. Quando Juda fez essa pergunta a Christo, o artista não pareceu se importar. "Christo disse: 'Você precisa entender que a arte está viva. E, se a arte está viva, precisa morrer'", relembrou Juda.

– Notas sobre o evento: Christo e Jeanne-Claude: Paris!

Em cartaz até 19 de outubro no Centro Pompidou, em Paris; centrepompidou.fr.

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