Josh Haner/The New York Times
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Chuva na Groenlândia é sinal preocupante das mudanças climáticas no Ártico

As chuvas são mais um indicativo do aquecimento global no Ártico, que está esquentando mais rápido do que qualquer outra região da Terra

Henry Fountain, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2021 | 05h00

Algo extraordinário aconteceu em agosto no ponto mais alto da camada de gelo da Groenlândia, a mais de 3 mil metros de altitude e de 800 quilômetros acima do Círculo Polar Ártico: pela primeira vez, choveu.

A chuva na estação de pesquisa – não apenas algumas gotas ou uma garoa, mas uma tempestade de várias horas, quando as temperaturas subiram ligeiramente acima de zero – é outro sinal preocupante de uma mudança no Ártico, que está esquentando mais rápido do que qualquer outra região do planeta.

“É incrível, é um novo capítulo no livro da Groenlândia”, disse Marco Tedesco, pesquisador do Observatório da Terra Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia. “É um fato realmente novo”.

A estação, que se chama Summit e fica o ano todo ocupada sob os auspícios da National Science Foundation, não registrara chuva desde o início das observações, na década de 1980. E as simulações de computador não mostram evidências para períodos anteriores, disse Thomas Mote, um cientista do clima da Universidade da Geórgia.

Condições acima de zero na Summit são quase tão raras. Antes deste século, os núcleos de gelo mostravam que estas ocorreram apenas seis vezes nos últimos dois mil anos, escreveu Martin Stendel, pesquisador sênior do Instituto Meteorológico Dinamarquês.

Mas, neste século, temperaturas acima de zero já ocorreram em 2012, 2019 e 2021 – três vezes em menos de dez anos.

A camada de gelo da Groenlândia, que tem mais de 3 quilômetros de espessura e cobre cerca de 1 milhão e 600 mil quilômetros quadrados, tem perdido mais gelo e contribuído mais para o aumento do nível do mar nas últimas décadas, pois a Terra se aqueceu com as emissões humanas de dióxido de carbono e outros gases que provocam o efeito estufa.

A superfície da camada de gelo ganha massa a cada ano porque o acúmulo de neve é maior do que o derretimento da superfície. Mas, no cômputo geral, a camada perde mais gelo com o derretimento nos pontos onde encontra o oceano e com o rompimento de icebergs. Nas últimas duas décadas, a Groenlândia perdeu, em média, mais de 300 bilhões de toneladas de gelo a cada ano.

Este ano provavelmente ficará dentro da média, disse Stendel, que também é coordenador do Polar Portal, site que divulga os resultados da pesquisa ártica dinamarquesa. Uma forte nevasca no início do ano sugeriu que poderia ser um ano acima da média para a acumulação, mas dois períodos de aquecimento, o primeiro em julho e o segundo no início de agosto, mudaram essa perspectiva, causando derretimento generalizado da superfície.

O aquecimento que acompanhou a chuva do último sábado também causou o derretimento de mais de 50% da superfície de gelo.

Mote disse que esses episódios de derretimento foram eventos “únicos”. “Mas esses eventos parecem estar acontecendo com cada vez mais frequência”, disse ele. “E isso prova que estamos vendo evidências concretas das mudanças climáticas na Groenlândia”.

Essa foi a primeira vez desde o início do monitoramento por satélite, em 1979, que o degelo ocorreu em mais da metade da superfície em meados de agosto, disse Mote. Normalmente, o pico de derretimento ocorre em meados de julho, como aconteceu em 2012, quando houve um grande evento de derretimento.

“No momento em que chegamos a meados de agosto, geralmente ocorre uma rápida redução da atividade de derretimento e um declínio da temperatura”, disse ele.

Tedesco disse que a chuva na estação não contribuiria diretamente para o aumento do nível do mar, porque a água escorre para áreas de gelo e não para o oceano. “Mas se isso está acontecendo na estação, o efeito em elevações mais baixas será mais violento”, disse ele. “E esse gelo está indo direto para o oceano”.

Tedesco descreveu a chuva na estação como “preocupante”, porque mostra que até mesmo um pequeno aquecimento pode ter efeito em toda a região.

“Meio grau de aquecimento pode realmente mudar o estado do Ártico, porque as coisas podem passar de congeladas a líquidas”, disse ele. “É exatamente o que estamos vendo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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