Adria Malcolm para The New York Times
Adria Malcolm para The New York Times

Cidade americana deixa de celebrar conquista relacionada ao colonialismo

Índios do Novo México consideram a encenação como uma tentativa racista de celebrar atrocidades históricas

Simon Romero, The New York Times

19 de outubro de 2018 | 06h00

SANTA FÉ, NOVO MÉXICO - Num acontecimento presente desde sempre na memória de todos, os moradores hispânicos vestem os trajes de conquistadores e nobres europeus uma vez ao ano para celebrar a retomada do Novo México em 1692, até então dominado pelos índios após uma violenta revolta contra o Império Espanhol.

Mas, depois de crescentes protestos por parte dos índios americanos, para quem a reencenação seria uma tentativa racista de celebrar atrocidades cometidas pelos colonizadores espanhóis, a tradição anual conhecida como Entrada foi encerrada oficialmente no mês passado, substituída por uma prece ecumênica para marcar o início da edição anual da Fiesta de Santa Fé.

A jogada, que busca uma reconciliação para essa cidade de 411 anos, foi uma tentativa de evitar o tipo de caos enfrentado pelas autoridades de outras partes dos EUA em relação aos monumentos ligados à Confederação e outros símbolos de brutalidade histórica.

O fim da Entrada está abrindo novamente um tema difícil: como retratar a complexa história do Novo México, marcada por séculos de escravidão de índios americanos, conquista militar espanhola e americana e tentativas de mostrar o estado como um ambiente onde hispânicos, índios americanos, anglo-saxões e outros brancos coexistem pacificamente.

"A Entrada se transformou num cisma entre nós, expondo as profundas feridas do colonialismo", disse Regis Pecos, ex-governador de Cochiti Pueblo, uma das 23 tribos do Novo México reconhecidas pelo governo federal. Ele também negociou o fim do desfile em nome de lideranças indígenas. "Sabemos que a reconquista não teve nada de pacífico. Então, por que celebrar algo que causa tamanho cisma?”.

A Entrada retrata a restauração do controle espanhol sobre o Novo México em 1692, graças ao conquistador Don Diego de Vargas, como um harmonioso feito do poderio colonial, com os povos indígenas aceitando o fim das hostilidades e o governo europeu.

Mas os historiadores documentaram os anos de resistência aguerrida enfrentada por Vargas por parte de diferentes tribos. Na tentativa de sufocar a insurgência, suas forças promoveram dúzias de execuções em massa de índios americanos em Santa Fé, não muito longe do local onde a Entrada era encenada.

A luta pelo controle daquela que era na época uma das colônias mais remotas do Império Espanhol ainda ecoa em Santa Fé, onde os hispânicos correspondem a 54% de uma população de 84 mil habitantes. Os anglo-saxões correspondem a 40% da população, e os índios americanos, a 2%.

O desfile não era muito antigo nem tinha precisão histórica, diferentemente daquilo que alguns aqui parecem sugerir.

Num momento em que cidades ao longo dos EUA entraram numa moda de desfiles evocando os feitos dos primeiros colonizadores europeus, a Entrada foi criada nas primeiras décadas do século 20, principalmente com o objetivo de atrair turistas para Santa Fé.

Os anglo-saxões fizeram o papel de conquistadores nos primeiros anos, até serem suplantados pelos hispânicos.

Alguns se queixam de que o cancelamento da Entrada é um símbolo de como os hispânicos cederam o poder político e econômico aos anglo-saxões nos anos mais recentes, a ponto de muitas famílias que há gerações fazem parte das tradições hispânicas locais não poderem mais arcar com o custo de morar aqui.

Mas muitos índios americanos têm uma opinião diferente. Pecos disse que o debate envolvendo a Entrada pode permitir que os hispânicos se concentrem mais nos seus laços com as culturas indígenas. Ele apontou para a revelação segundo a qual muitos hispânicos locais têm ancestrais que eram Genízaros, índios americanos escravizados e vendidos a famílias hispânicas entre os séculos 16 e 19.

"Essa pode ser uma oportunidade para que o povo do Novo México encare com sinceridade sua herança e seus ancestrais", comentou Pecos.

De todo modo, o fim do desfile pode refletir também uma mudança no equilíbrio do poder político local. As tribos estão exercendo maior influência econômica, graças à renda que obtêm com os cassinos. Alguns moradores locais pensam naquilo que a cidade tem a perder.

Richard Barela, presidente da Union Protectiva de Santa Fé, organização dedicada à preservação da cultura hispânica da cidade, disse ao jornal The Santa Fé New Mexican que o fim do desfile era parte da erosão das tradições que fazem Santa Fé se destacar entre as cidades americanas. "Se começarmos a abandonar essas coisas, logo ficaremos iguais a Phoenix, Arizona", disse ele. "No espírito", acrescentou. "Sem alma".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.