Ian Willms para The New York Times
Ian Willms para The New York Times

Cidade do Amanhã projetada pelo Google tem planos frustrados

A história de como Toronto obrigou o Google a recuar em seus planos é a história de moradores locais que enfrentaram uma grande empresa

Ian Austen, The New York Times

28 de março de 2020 | 06h00

TORONTO — Era um anúncio tão grande que o primeiro-ministro Justin Trudeau voou até Toronto para fazê-lo. Uma parente corporativa do Google tinha sido escolhida para transformar uma antiga área portuária em uma "cidade do amanhã" de altíssima tecnologia.

Mas, quase imediatamente, o projeto - combinando construção civil ambientalmente avançada com um plano prevendo sensores que acompanhariam os movimentos e ações dos moradores — enfrentou oposição. Os críticos o descrevem como receita para uma distopia urbana movida pela vigilância e controlada por corporações, apresentando suas objeções à entrega do espaço a uma das empresas mais ricas do mundo.

Agora, passados quase dois anos e meio, essa oposição mostrou que pode-se enfrentar o Google e vencer. Depois de dizer que tinha subestimado as preocupações de privacidade envolvidas no plano original, a Sidewalk Labs, irmã do Google, recuou. Recentemente, foram revelados os detalhes de um plano menos ambicioso incluindo novas proteções à privacidade. Mas alguns críticos ainda não se convenceram. A agência do governo Waterfront Toronto anunciará em maio se o projeto irá adiante.

“A situação explodiu na cara deles", disse um dos principais críticos do projeto, Jim Balsillie, que como codiretor executivo da Research in Motion ajudou a transformar o BlackBerry em um smartphone de sucesso, alçando-o à categoria de um dos maiores nomes canadenses da indústria da tecnologia. “Acharam que aceitaríamos isso como parvos colonizados.”

A história de como Toronto obrigou o Google a recuar em seus planos é a história de moradores locais que enfrentaram uma grande empresa. Mas reflete também uma crescente reação em todo o mundo contra os grandes nomes da tecnologia, que se acelerou desde o dia em que a Sidewalk Labs revelou sua proposta. “Acho que houve uma significativa mudança nas atitudes e no entendimento público em relação ao que está em jogo e aos problemas dessas gigantes da tecnologia", disse Andrew Clement, professor emérito da Universidade de Toronto.

O recado de Balsillie e dos demais é direto: dizem que o investimento de empresas de tecnologia estrangeiras no Canadá sugam o conhecimento do país, criando um ralo que drena a economia. Balsillie descreveu os planos da Sidewalk para Toronto como uma jogada do Google para usar dados das vidas das pessoas no mundo físico de maneira semelhante à exploração de suas vidas online — afirmação que a Sidewalk nega veementemente.

O projeto, conhecido como Quayside, foi proposto em um momento em que a Waterfront Toronto criou um concurso em 2017 para o desenvolvimento de uma área de 12 acres no antigo parque industrial de Toronto, às margens do Lago Ontario. Há muito abandonada, a região tem um elevador de grãos e um abrigo para os sem-teto. Mas fica ao lado de uma área potencialmente imensa para novos empreendimentos: cerca de 790 acres de terras pertencentes ao governo federal, e o maior terreno ainda por desenvolver no centro de Toronto.

A Sidewalk, fundada pelo Google em 2015 para o desenvolvimento de tecnologias de melhoria da vida urbana, venceu a competição. Trata-se de uma cidade do futuro: seriam erguidos arranha-céus, ciclovias seriam usadas para derreter a neve, imensas marquises protegeriam os pedestres. Os sensores rastreariam os movimentos para otimizar tudo, desde os semáforos até um exército subterrâneo de robôs entregando pacotes e descartando o lixo.

Os críticos rejeitaram a premissa da Sidewalk, segundo a qual os algoritmos são melhores do que a política quando se trata de projetar e administrar uma cidade. E alguns disseram que o projeto parecia uma forma de promover conceitos como carros autônomos e outros interesses do Google.

Dan Doctoroff, diretor executivo da Sidewalk, questionou o argumento de Balsillie segundo o qual o projeto seria uma forma de o Google usar dados do mundo físico como faz no mundo online. “É uma afirmação totalmente falsa", disse Doctoroff. “Ele nunca encontrou o mínimo de evidência indicando que seria esse o caso.”

A Sidewalk finalmente propôs que a própria Waterfront Toronto defina as regras envolvendo o uso de dados, e também que a informação seja armazenada em um “fundo de dados” aberto, administrado pela agência. A Sidewalk tem seus defensores, incluindo Richard Florida, professor de estudos urbanos da Universidade de Toronto. “Quando visito cidades americanas, as pessoas parecem enlouquecidas, dizendo, ‘Traga essa ideia para cá, por favor’”, disse ele. Mas Balsillie discorda. “O que eu pedi foi um recomeço seguindo os parâmetros corretos", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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