Jason Varney para The New York Times
Jason Varney para The New York Times

Cidade pequena dos EUA é lar acolhedor para refugiados e sua culinária

Lancaster, na Pensilvânia, é conhecida pela forte presença da comunidade Amish

Priya Krishna, The New York Times

18 de agosto de 2019 | 06h00

LANCASTER, PENSILVÂNIA - O Mercado Central de Lancaster, uma colcha de retalhos de bancadas envoltas em um edifício de estilo romanesco desde 1889, é há muito tempo um agitado centro de atividade onde a grande população de alemães da Pensilvânia, ou Amish, vende os frutos, a carne, os assados e outros alimentos produzidos nas fazendas nos arredores da cidade. Mas, hoje em dia, há algo diferente no ar.

O forte cheiro dos temperos que emana das samosas de carne em uma bancada, Rafiki Taste of Africa (Sabores africanos de Rafiki), se mistura ao aroma das cebolas e abacaxis cortados para o molho usado no Guacamole Specialist. O monótono ruído do motor que transforma a cana de açúcar em caldo pode ser ouvido no Havana Juice. Uma bandeira porto-riquenha pende perto do caixa do Christina’s Criollo, onde se serve empanadas e banana à milanesa.

“Malala esteve aqui não faz muito tempo", disse Omar Al Saife, 65 anos, proprietário do Saife’s Middle Eastern Food, referindo-se a Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa que ganhou o prêmio Nobel da paz em 2014. Uma foto emoldurada dela com Al Saife decora a bancada dele.

Durante anos, Lancaster lembrou imagens de cavalos e charretes, fazendas de laticínios e padarias administradas pelos Amish e menonitas, que acreditam em uma vida simples, muitas vezes abrindo mão de conveniências modernas como os carros e a eletricidade. Mas esse estereótipo não revela a verdadeira notícia do local: o número cada vez maior de restaurantes e estabelecimentos que servem comida administrados por imigrantes e refugiados, e a sua inclusão fácil no tecido social da cidade.

“Cresci em meio aos hambúrgueres, cachorros-quentes e caçarolas - tudo normal", disse Stephen Clubine, 32 anos, morador de Lancaster. “Agora, temos um restaurante de Trinidad, alguns restaurantes vietnamitas e outros japoneses. Não é o que costumamos esperar de uma cidade pequena.”

Essa inclusividade remonta a uma antiga história. Os Alemães da Pensilvânia chegaram à região em 1709, fugindo da perseguição na Europa. Um cartaz acima de um movimentado cruzamento no centro da cidade diz: “Uma história de boas-vindas desde 1742", ano da incorporação de Lancaster.

Organizações religiosas nacionais como o Comitê Central Menonita e a Church World Service buscaram ativamente trazer refugiados à cidade. Em 2017, a Church World Service informou ter assentado 477 refugiados aqui. Naquele mesmo ano, a cidade, cuja população chega a aproximadamente 60 mil pessoas, recebeu 20 vezes mais refugiados per capita do que qualquer outra nos Estados Unidos, de acordo com a organização Lancaster City Alliance, dedicada ao desenvolvimento da cidade.

Sudershan Adhikari, 29 anos, proprietário do restaurante indiano e nepalês Namaste, chegou a Lancaster em 2017 vindo de Vermont, depois de ter fugido da limpeza étnica contra nepaleses no Butão em 1990. Os momos recheados de carne servidos por Adhikari são muito diferentes dos purês de batatas e cassarolas que costumam figurar na maior parte da culinária dos alemães da Pensilvânia. Mas ele disse que, quando o Namaste foi inaugurado, os moradores locais se tornaram fãs da nova alternativa.

O mesmo ocorreu com o Issei Noodle. O refugiado vietnamita Robert Pham e a mulher, Naomi, que cresceu no Japão, inauguraram um restaurante em 2008 em Carlisle, a cerca de 100 quilômetros a oeste da cidade. O filho deles, Andre Pham, e a mulher, Donna, abriram um endereço em Lancaster em 2014. O cardápio reúne a herança dupla da família, com espaço dedicado igualmente ao pho e ao ramen.

Os sabores fortes e atrevidos do restaurante se revelaram tão populares que, em junho, os Phams abriram uma bancada no Mercado Central. No mercado, o dono de uma padaria Amish (que pediu para não ser identificado pois não queria seu nome na internet) olhou ao redor do espaço e suspirou. “Sinto falta de como as coisas eram antes", disse ele, apontando para as novas bancadas no mercado.

Vários outros restaurantes fizeram questão de contratar refugiados e imigrantes. Maher Almahasneh, que fugiu da Síria em 2013, acaba de completar um período como cozinheiro principal no Upohar, restaurante vegetariano cuja equipe de cozinha é formada por refugiados e outros que enfrentaram obstáculos para conseguir um emprego, como o vício e a vida nas ruas, sem teto. “As pessoas do meu país me disseram que, nos EUA, todo mundo têm uma arma e muitos problemas", disse Almahasneh, 39 anos. “Mas o que vejo aqui é muito diferente. Amo Lancaster.” O cardápio do Upohar muda dependendo de quem está cozinhando.

Já tivemos akara, ou bolinhos de feijão de corda empanados e fritos, da Nigéria; uma limonada iraquiana com flor de laranjeira chamada sharab al-leymoun; e um cozido de feijão preto de Cuba. Jennie e Jonathan Groff, casal dono do Stroopie Co., que assa os biscoitos stroopwafel - bolachas espessas recheadas de caramelo - empregam refugiados e promovem aulas de inglês no estabelecimento Lancaster Sweet Shoppe.

Jennie, 42 anos, cresceu nos arredores da cidade, em uma família menonita que ajudava regularmente na adaptação dos refugiados. “Amar o próximo é uma parte fundamental de tudo que acreditamos", disse ela. “Foi o que as pessoas um dia fizeram por nós e, portanto, algo que nos marcou muito enquanto comunidade.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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