EFE/EPA/BRUCE OMORI / PARADISE HELICOPTERS
EFE/EPA/BRUCE OMORI / PARADISE HELICOPTERS

Cidade fantasma vulcânica do Havaí: portas entreabertas em casas destruídas pela lava

Um olhar dentro da comunidade varrida pela lava e abalada pelos "rugidos" do vulcão Kilauea

Robb Todd, The New York Times

27 Maio 2018 | 10h00

Tudo pode acontecer pelos caminhos, e não apenas aqueles menos trilhados pelos poetas. Se nossa aventura nos levar suficientemente longe, poderemos encontrar uma riqueza inesperada, a violência da natureza ou a dos homens.

Poucos percorreram tantos caminhos quanto Juan Villarino, carona profissional, que precisa convencer os transeuntes de que não é um bandido de beira de estrada.

“Um motorista tem menos de três segundos para tomar uma decisão”, ele falou a “The Times”. “E esta decisão é uma reação a fatores inconscientes e à comunicação subliminar”.

Depois que a economia da Argentina entrou em colapso, em 2001, ele se rendeu “ao canto de sereia da estrada“, escreveu Wes Ensinna no “Times”. “Eu me dei conta de que poderia trabalhar toda a minha vida  por uma casa, uma carreira”, afirmou Villarino, “e que tudo isto poderia desaparecer da noite para o dia”.

Desde então, ele anda de carona, e paga suas viagens escrevendo sobre estas andanças. Apesar dos perigos deste tipo de aventura, a única arma que diz carregar é “um sorriso idiota”. Isto em parte  por causa de um dos paradoxos do ofício. Como nos romances, escreveu Enzinna, os que mais precisam  de uma carona podem parecer desesperados, o que torna menos provável que a consigam.

“Viajar de carona é um processo de reconciliação entre os que têm e os que não têm”, disse Villarino. “Eu gosto de me colocar em uma posição de impotência e ver o que acontece”.

Recentemente, se ele tentasse conseguir uma viagem de graça na rodovia Interstate 70, em Indiana, poderia ter ingressado na turma dos que têm - pelo menos temporariamente. A porta de um caminhão blindado se abriu e do veículo caíram sacolas de dinheiro. Com mais de meio milhão de dólares se espalhando ao seu redor, escreveu Matthew Haag no “The Times”, “a hipotética pergunta atemporal se tornou realidade: O que você faria neste caso?”

O que muitas pessoas fizeram foi parar de repente o carro e se precipitar sobre as notas, que, descreveu Haag, “haviam se amontoado como folhas em pilhas sobre a grama ao lado da rodovia”. Os que moravam nas proximidades, saíram de casa correndo para encher os bolsos de cédulas de 20 dólares.

“As pessoas sabem distinguir o certo do errado”, segundo o policial Bill Dalton afirmou em um documento, “e todas aquelas que pegarmos com um dólar deste dinheiro no bolso, serão presas por roubo”.

A escolha entre pegar o dinheiro ou um carona na beira da estrada levanta uma questão existencial que Enzinna faz: As pessoas são boas ou más? A estrada, ele escreveu, “pode fazer e desfazer esta declaração de fé, inúmeras vezes, inclusive em um único dia”.

A fé de Villarino talvez pudesse ser testada se as suas andanças o levassem até a Big Island, a Ilha Maior do Havaí. A lava do vulcão Kilauea queimou  estradas e casas no seu caminho até o oceano. E, como Villarino sabe, as coisas materiais podem desaparecer em um instante - uma lição que Mike Hale aprendeu recentemente.

Hale fugiu da sua casa por causa da fumaça tóxica expelida pelo vulcão. Quando retornou para recuperar alguns dos seus pertences, a lava bloqueava a estrada. Um vídeo que se tornou viral mostrou ao vivo a lava escorrendo pela rua, engolindo o Ford Mustang de Hale e a sua caixa do correio.

“Acho que só nos resta nos rendermos à natureza”, ele afirmou, acrescentando que, ao ver o vídeo, “eu pensei: Tudo bem, você tem o que tem, está feito”.

Rufus Daigle, um poeta que vende café e livros em uma banca em uma rua próxima (por onde com certeza agora os visitantes escasseiam) diz que o vulcão está exigindo respeito.

E falou a “The Times”:  “É a Terra que está peidando, cara.”

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