Mauricio Lima para The New York Times
Mauricio Lima para The New York Times

Cidade francesa constrói memorial para admitir passado no comércio de escravos

Nantes desempenhou papel importante no comércio de escravos na Europa

Alissa J. Rubin, The New York Times

23 de novembro de 2018 | 06h00

NANTES, FRANÇA - Às margens do Rio Loire, estudantes vieram visitar o único memorial da França aos escravos transportados por navios franceses para o Novo Mundo. Degraus cinzentos descem a um espaço fechado de madeira desgastada, não muito diferente do compartimento de carga onde os escravos viajavam acorrentados.

Numa manhã recente, os estudantes fizeram silêncio ao descer a escada até o Memorial da Abolição da Escravidão. “Todos passam por um momento em que a ficha cai, um momento em que entram no memorial e sentem uma relação entre o silêncio, a água e tudo que se escreveu a respeito da escravidão", disse Johanna Rolland, prefeita de Nantes.

A inauguração do memorial na cidade em 2012 e sua reforma do museu de história, levando em conta o papel de Nantes no comércio de escravos, abriram caminho para que outras cidades portuárias francesas tirassem das sombras sua história do período.

A França era a terceira maior potência europeia envolvida no comércio de escravos, atrás de Portugal e Inglaterra, transportando algo entre 1,3 milhão e 1,4 milhão de cativos da África para as colônias francesas de Guadalupe, Haiti, Martinica, Louisiana e Guiana Francesa.

Durante anos, Nantes, como a maioria das cidades europeias, resistiu à ideia de reconhecer publicamente essa história. Mas organizações locais, muitas delas representando negros do Caribe, pressionaram pela admissão. Uma das ideias era “instalar algo permanente, como uma placa marcando o fim da escravidão", disse Octave Cestor, fundador da Memories From Overseas, uma organização de pessoas das antigas colônias francesas. Quando as autoridades recusaram a proposta, o grupo dele e outros encomendaram uma estátua de um escravo rompendo suas correntes perto do porto.

Alguns dias após a instalação, “a estátua foi vandalizada e quebrada", lembra Michel Cocotier, que lidera a Memories From Overseas e trabalha como diretor de uma escola. Pessoas contrárias à estátua tinham enrolado as correntes nos tornozelos e quebrado um dos braços, uma referência ao “Code Noir", documento emitido na França em 1685 regulamentando as relações entre senhor e escravo. A amputação era um castigo para os escravos fugidos.

Cresceu então o apoio à construção de um memorial refletindo o envolvimento da cidade no comércio de escravos. Jean-Marc Ayrault era o prefeito quando o memorial foi inaugurado. “Quando não falamos claramente a respeito das coisas, quando não as expressamos, quando essa história é ocultada, quando não é mencionada, ela acaba voltando, e frequentemente é usada para maus fins", disse ele.

No memorial, três meninas do nono ano vindas da Normandia pararam para ler na parede uma citação de Louis Mosnier, comandante do navio Sol. “23 de março, 1774. Elas se jogaram no mar, catorze negras, todas juntas, ao mesmo tempo, num movimento só - foram muito disciplinadas, pois as ondas vinham altas e jogavam com força, o vento soprava com a tormenta. Os tubarões já tinham comido muitas antes que se pudesse lançar um bote, e só pudemos salvar sete delas, das quais uma morreu.”

Ao terminar de ler, uma garota puxou a gola do casaco. “Está frio aqui", disse ela. “Para mim, chega.” Ela e as colegas se voltaram para partir.

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