Stephanie Gengotti para The New York Times
Stephanie Gengotti para The New York Times

Cidade medieval investe em passeios espaciais

Grottaglie, na Itália, quer se tornar o 'Vale do Silício' espacial da Europa

Jason Horowitz, The New York Times

10 Agosto 2018 | 10h15

GROTTAGLIE, ITÁLIA - Depois de correr por uma pista de pouso de três quilômetros, uma van chegou a um trecho do asfalto já coberto pela grama alta. Marco Franchini, funcionário do aeroporto, saiu da van e anunciou: "Aqui estamos. O espaçoporto".

Grottaglie, uma cidade medieval conhecida por sua cerâmica, está se preparando para decolar. Em julho, empresas aeroespaciais italianas assinaram um acordo com a Virgin Galactic para levar turistas com US$ 250 mil para gastar em voos suborbitais que oferecem panoramas da curvatura da Terra e cerca de 5 minutos de gravidade mínima. Quarenta e seis locais de todo o país foram levados em consideração. Em maio, o ministério dos transportes da Itália escolheu Grottaglie, com população de 35 mil habitantes - com sua longa pista de pouso, boas condições climáticas e histórico de campo de testes para aeronaves não tripuladas.

No final de julho, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, apareceu ao lado do presidente americano, Donald J. Trump, e falou a respeito de "novos aviões que poderão ligar a Itália aos Estados Unidos com voos de uma hora e meia atravessando a atmosfera".

Se tudo sair de acordo com o planejado, as aeronaves White Knight II, da Virgin, transportarão o SpaceShipTwo Unity até uma altitude de 20 mil metros, quando o módulo deve se separar e percorrer a trajetória da linha Kármán entre a atmosfera da Terra e o espaço sideral, a 100 quilômetros do nível do mar.

Richard Branson, o bilionário fundador da Virgin, disse que 600 pessoas estão a espera das primeiras decolagens a partir da plataforma de lançamento original no Novo México no ano que vem, e as operações na Itália devem ser iniciadas dois anos mais tarde, embora os atrasos tenham adiado o primeiro voo em mais de uma década.

Mas essa região, Puglia - onde nasceu José de Cupertino, padroeiro dos astronautas, no século 17, aparentemente dotado do poder de levitação -, mostra-se esperançosa. Além disso, precisa de um renascimento econômico.

Fora de Grottaglie, a maior siderúrgica da Itália, ILVA, é um problema político e uma catástrofe ambiental que faz chover partículas vermelhas tóxicas nos arredores. Seu fechamento ameaçaria 20 mil empregos. Assim, Michele Emiliano, governador da região, enxerga Grottaglie como um "Vale do Silício" da indústria aeroespacial europeia. Os defensores da proposta falam em indústrias complementares de simuladores de voo, viagens de pesquisa e lançamento de satélites.

Mas, do lado de fora de seu ateliê de cerâmica, Giuseppe Santoro disse duvidar de que o projeto seja realizado - e, se for, ele não acredita que traga algum benefício para a cidade. Outros ceramistas da região temem a alta do aluguel e aumento na poluição auditiva, mas alguns parecem dispostos a dar ao projeto uma chance de funcionar.

"Torço para que a coisa toda saia do chão", disse Enza Fasano, mestre ceramista. Mas ela acrescentou que a cidade tinha muito a fazer, como melhorar as acomodações.

O marido dela, Salvatore Santoro, contou que trabalhadores da cidade deveriam organizar passeios turísticos pelo bairro dos ceramistas. Segundo ele, se as pessoas estão dispostas a gastar US$ 250 mil em um "voo exorbitante", elas "poderiam gastar € 100 com peças de cerâmica".

As autoridades insistem que Grottaglie está pronta e tem muito a oferecer aos turistas. Além da cerâmica, a cidade produz uvas e mosquiteiros, disse o vice-prefeito, Vincenzo Quaranta.

Mas, no aeroporto, que não tem mais voos comerciais, o terminal de check-in, agora abandonado, parece congelado no tempo com seus mostradores analógicos.

Franchini mostrou um imenso hangar e explicou que ali ficaria a espaçonave da Virgin.

"Feche os olhos", disse ele, "e imagine".

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