Brett Gundlock para The New York Times
Brett Gundlock para The New York Times

Cidade mexicana rejeita política de imigração de López Obrador

O crescente número de imigrantes que chega a Mapastepec contribui para aumentar a escassez de recursos de uma cidade já empobrecida

Paulina Villegas e Kirk Semple, The New York Times

02 de maio de 2019 | 06h00

MAPASTEPEC, MÉXICO - Como muitos outros em sua empobrecida região do sul do México, o agricultor Joaquín Ramírez votou em Andrés Manuel López Obrador no ano passado. Mas menos de cinco meses mais tarde, sua opinião do presidente começou a mudar para pior.

A razão, segundo ele, é evidente em razão das dezenas de milhares de imigrantes que, nos últimos meses, pararam nesta pequena cidade a caminho da fronteira dos Estados Unidos. Ramírez atribui este fato às mensagens e à política amistosa do presidente em relação aos imigrantes. "Tentando fazer o bem, fez muito mal. Parece que está mais preocupado com eles do que com seu povo", afirmou.

As cidades no estado sulino de Chiapas há muito tempo são uma parada na rota migratória. Mas algo começou a mudar em outubro, com a chegada de milhares de imigrantes que viajavam em caravana. Na época, Mapastepec os recebeu com simpatia, determinando que cada integrante do pessoal da prefeitura - cerca de 30 pessoas - ajudasse a alimentá-los e a cuidar deles. Desde então, uma corrente interminável de caravanas passa pela região, e a paciência está prestes a esgotar-se.

O objetivo de muitos que frequentemente fogem da pobreza e da violência da América Central é chegar à fronteira no norte do México, onde as autoridades precisam atender aos que pretendem pedir asilo nos Estados Unidos.

Em Mapastepec, em meados de abril, pelo menos mil imigrantes ocupavam todos os espaços em um abrigo. Centenas de outros estavam vivendo pelo centro da cidade, e milhares ainda estavam chegando do sul.

Segundo Ervin La Parra, maquinista da vizinha Huixtla, o governo de López Obrador não demonstra a menor disposição de fechar a fronteira meridional. "Não entendo por que ainda estão deixando tanta gente entrar. Suas razões (do presidente) são um mistério para mim", disse.

No dia 19 de abril, a polícia federal mexicana prendeu centenas de imigrantes que se banhavam em um rio nos arrabaldes de Mapastepec, segundo um jornal local. Não se sabe ao certo por que aquele grupo particularmente foi visado. Segundo os imigrantes e seus defensores, as medidas inconsistentes do governo contribuíram para a confusão.

López Obrador foi pressionado pelo governo Trump a conter o fluxo de imigrantes que seguem rumo aos Estados Unidos. López Obrador assumiu a presidência em dezembro, declarando que ignoraria a estratégia de seus antecessores que aplicavam a lei em primeiro lugar em vez de tratar do problema da migração. As prisões e as deportações despencaram em seus três primeiros meses no cargo, embora o fluxo aumentasse.

Em janeiro, seu governo convidou os imigrantes da América Central a pedirem vistos humanitários de um ano que lhes permitiriam trabalhar no México, em uma medida que definiu como permanente. Mas depois que mais de 13 mil pessoas fizeram a solicitação em duas semanas, a medida foi revogada. Uma promessa de recomeçar os vistos foi suspensa em meados de abri. Em seu lugar, as autoridades afirmaram que emitiriam somente vistos regionais que impedem que os imigrantes viajem legalmente até a fronteira americana. E informaram que estão enviando forças de segurança para o sul do México a fim de controlar a migração ilegal.

Kelvin López, 23, que viajava com a esposa e o filho, contou que fugiram da cidade de San Pedro Sula, em Honduras, castigada pela violência, na esperança de conseguir um visto humanitário. "Quando chegamos, nos disseram que o governo não estava mais concedendo estes vistos, e por isso decidimos partir para o norte sem autorização, correndo riscos em toda parte e suportando a fome com insegurança", contou.

A Comissão Nacional dos Direitos Humanos do México criticou o governo de López Obrador por levar tanto tempo para processar os pedidos de vistos e de documentos de viagem dos migrantes. Em Mapastepac, segundo a comissão, as autoridades disseram aos imigrantes que podem ter de esperar seis meses para conseguir a documentação, o que provocou "um violento protesto", que foi reprimido pela polícia.

O imigrante Ramón Alfredo Nolasco hondurenho disse que esperou um visto de trabalho por mais de um mês, e acredita que os migrantes "foram enganados" pelo governo. "Continuam nos dizendo que o visto vai chegar amanhã, e então depois de amanhã, e nada acontece".

Os distúrbios no acampamento de migrantes de Mapastepec aumentaram a crescente desconfiança dos moradores. "Temos um medo constante de uma briga ou de confrontos com a polícia", contou a vendedora de comida Dora Luz García Cruz.

Aparentemente, no entanto, muitos migrantes não se perturbam com a crescente animosidade em relação a eles. O hondurenho Nelson Chirino, que viajava com o filho de 11 anos, disse que estava determinado a entrar nos Estados Unidos, embora tivessem ficado sem dinheiro e estivessem viajando sem os papéis necessários. "Precisamos ir em frente e jamais olhar para trás". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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