Jeenah Moon para The New York Times
Jeenah Moon para The New York Times

Cidade no interior do Canadá abre as portas para fãs de musical

Turistas são atraídos para a pequena Gander, cujos moradores são conhecidos pela generosidade em massa

Alyson Krueger, The New York Times

10 Março 2018 | 10h00

No final do primeiro semestre do ano passado, Barbara Pearson, que trabalha com publicidade farmacêutica, levou a mãe de 90 anos e a filha de 37 anos para assistirem ao musical da Broadway, “Come From Away".

Premiada com o Tony, a produção, que estreou em março do ano passado, conta a história verídica do que ocorreu no dia 11 de setembro, quando 38 aviões do mundo todo foram desviados de suas rotas e receberam ordens para pousar em Gander, cidade remota no nordeste da Terra Nova.

Durante cinco dias, cerca de 10 mil moradores da província alimentaram, abrigaram e consolaram cerca de 6.700 visitantes inesperados. Alguns abriram suas casas para pessoas que precisavam tomar banho, trocar de roupa ou dormir numa cama quente. Outros pagaram rodadas de bebidas para os passageiros no bar da cidade. Uma moradora local, Beulah Cooper, ficou perto de um telefone fixo durante dias acompanhando uma nova-iorquina que esperava notícias do filho, um bombeiro.

Imediatamente, o público se conectou com a curiosa história de generosidade em massa. Mas, para Barbara, assistir ao espetáculo foi uma experiência particularmente poderosa. No ano anterior, ela tinha vivenciado momentos de ansiedade extrema depois da eleição presidencial de 2016. "Não quero parecer demasiadamente melodramática", disse ela. "Mas, para mim, é como se estivesse em jogo a sobrevivência da esperança".

Quando o musical chegou ao fim, Barbara estava fazendo planos. “Tive essa sensação da existência da bondade, pensando que, se essas pessoas são realmente assim, preciso ir até lá conhecê-las”. Em novembro, ela embarcou num avião com destino a Gander acompanhada de Jenni Swan, 34 anos, que ela conheceu num debate em grupo a respeito da peça.

Elas são apenas duas dos muitos espectadores do musical que fizeram peregrinações até a Terra Nova.

"Na temporada de verão, nosso turismo teve alta de 30% em relação ao ano anterior", disse Claude Elliott, ex-prefeito de Gander e figura importante na produção. "Essa reação do público, das pessoas que querem nos visitar, é algo que nunca teríamos imaginado". O turismo na ilha se tornou, agora, uma indústria de bilhões de dólares.

Barbara disse que desejava visitar a região para conhecer “boas pessoas”. Ela passou as férias frequentando o shopping, a praça da cidade, a cafeteria local, simplesmente para conversar com quem estivesse ao seu lado.

Um casal de Gander com seis filhos convenceu Barbara a visitar seu lar para provar uma refeição tradicional. "Eles serviram algo que chamam de Jiggs, um jantar que inclui peru, recheio, cenouras, batatas, nabos e tigelas de pão frito", disse ela.

Outros turistas tentam conhecer as pessoas que inspiraram os personagens da peça e visitar as locações. “A peça é 100% fidedigna", disse Elliott. “Tudo que está no musical aconteceu de verdade.”

Mary e Burt Emerson, de Naperville, Illinois, assistiram ao musical em Nova York e Washington. Eles viajaram para a Terra Nova para celebrar o aniversário de casamento, usando as camisas de lembrança da peça. "As pessoas repararam e começaram a nos contar histórias de episódios que ocorreram no 11/9", disse Mary.

Eles receberam até a típica cerimônia local de boas-vindas, retratada no musical, que envolve um discurso, um gole farto de rum e um beijo num peixe morto. Jenni disse que a viagem a Gander foi terapêutica. "Moro em Nova York há mais de 13 anos, e sei que nos deixamos afetar pelas pressões da vida", disse ela. “Ter ido até lá e visto a mentalidade positiva dessas pessoas me ajudou a ser mais consciente dos momentos em que estou me deixando levar pelo estresse".

A cidade oferece passeios oficiais de van, centros de boas-vindas e placas para os fãs de “Come From Away”. O site de Gander alerta os interessados em visitar a cidade na alta temporada (verão) que façam reservas de acomodação e locação de carros com antecedência. Elliott, entretanto, não acha que isso represente um problema.

“Se as vagas tiverem acabado, tente conversar com alguém e ver se a pessoa pode acolher você na sua casa", disse ele. “É assim que somos.” Trata-se de um intercâmbio de mão dupla. Os “ilhéus”, como são chamados no musical, também estão visitando Nova York.

"Tive uma sensação estranha de estar onde tudo aconteceu", disse Elliott. "Foi como se estivesse andando em solo sagrado. Olhamos ao redor, fechamos os olhos e conseguimos vislumbrar o que essas pessoas enfrentaram naquele dia".

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